sábado, 4 de outubro de 2008

Deterioração do emprego nos EUA no mês de Setembro

Apesar da taxa de desemprego se manter nos 6,1% (na verdade subiu de 6,05% para 6,12% ou seja 0,07%) os números do emprego nos EUA foram mais um indicador das dificuldades que a economia americana está a atravessar com uma redução de 159 mil trabalhadores assalariados (o nono mês consecutivo de queda e uma redução de quase 1 milhão de empregos no sector privado desde Novembro de 2007).
A deterioração da situação no mercado de trabalho na medida em que aumenta as dificuldades das famílias para fazer face aos seus compromissos financeiros (numa altura em que a taxa de esforço financeiro se situa em níveis historicamente muito elevados http://www.federalreserve.gov/releases/housedebt/default.htm) tenderá a constituir mais um factor de agravamento situação do sistema financeiro numa altura em que surgiram sinais bastante preocupantes de dificuldades na obtenção de crédito (nomeadamente através da emissão de papel comercial) - ver http://www.economist.com/opinion/displayStory.cfm?source=hptextfeature&story_id=12342237.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

EUA já em recessão ?

Os números das vendas de automóveis em Setembro situaram-se 23,4% abaixo dos registados um ano antes (considerando o período Jan-Set a queda face ao período homólogo é de 12,8%), considerando os dados conhecidos para os meses de Jul e Ago já indicavam uma quebra do consumo superior a 1% bem como os indicadores de produção industrial (-1,6% na média móvel 3 meses - valores anualizados) e construção (-4,8%) não parece muito arriscado apostar uma quebra do PIB neste trimestre.

O custo de oportunidade do Magalhães

Em carta publicada hoje no Público o coordenador adjunto do Plano Tecnológico vem defender que “O Magalhães vale mais do que dúvidas e polémicas estéreis. O Magalhães vale pelo brilho nos olhos das crianças que o recebem e vale pela oportunidade que lhes é dada de acreditar no futuro e construir algo de novo”.
Fico, pois, feliz por saber para o Governo o mais importante é a felicidade das crianças e que não serão questões ou dúvidas sobre a efectividade dos recursos aplicados ou sobre o financiamento do projecto que vão impedir o Governo de garantir essa felicidade e destruir a esperança no futuro.
É óbvio que em vez de se ter optado por “oferecer” portáteis, poder-se-ia ter recorrido ao testado método utilizado pelo Pai Natal de pedir às criancinhas que formulassem uma lista de desejos com base na qual seria oferecidas “prendas” às crianças. Tal teria eventualmente maximizado a felicidade das crianças mas o Governo também quer que as nossas crianças acreditem no futuro e construam “algo de novo”. E sobre como é que o Magalhães vai contribuir para isso, somos elucidados que “a tecnologia, só por si, não é uma varinha mágica para resolver problemas mas é um fortíssimo catalisador de mudança que ajudará à criação de conteúdos e à participação de muito mais portugueses na rede global”. Ou seja, só por si não, mas talvez combinada com outras coisas o Magalhães possa funcionar uma “varinha mágica” (o que não é de estranhar, pois afinal nas histórias de encantar as varinhas mágicas só funciona quando se conhecem as “palavras mágicas” e “mudança”, “esperança” e “catalisador” são, pelo menos, tão boas como outras quaisquer).
É-nos, no entanto, dito, que o projecto “Vale sobretudo porque coloca o computador e a Internet ao alcance de todas as crianças, e não apenas daquelas cujas famílias podem pagar preços de mercado”. Ou seja, existia uma falha de mercado que impedia que todas as crianças tivessem acesso a computador e à Internet que o Governo se apressou a suprir, mas mesmo aceitando que essa falha existia não se explica porque razão se considerou que esta seria a melhor forma de solucionar essa falha (desde logo não se compreende porquê subsidiar o acesso a todos e não apenas aqueles cujas famílias não podiam pagar o preço de mercado.
E muito francamente duvido que tenha sequer existido uma ponderação adequada dos benefícios, pois o que nos é dito é para não nos preocuparmos pois “o Magalhães não surge em vez de outras coisas que faltam ao sistema de ensino”, ou seja procura-se fazer passar a mensagem de que estaríamos perante o caso raro de “um almoço grátis” e, portanto, não nos precisamos de preocupar com minudências como o custo de oportunidade.
A tranquilidade que esta afirmação me introduz é infelizmente contrariada pela de que “Não há memória de um investimento desta ordem, nem há nenhum pais que tenha feito nada parecido”, pois não havendo custos não sei se podemos falar em “investimento” (ou tem custos elevados e implica necessariamente sacrificios noutras áreas - ou dos contribuintes - ou não tem e o investimento é nulo ou insignificante) e fica porque explicar porque os outros países nunca fizeram nada semelhante… a não ser que o Governo tenha descoberto alguma solução milagrosa, caso em que será de esperar que na próxima reunião da União Europeia a divulgue e depressa veremos surgirem programas semelhantes noutros países da Europa.

PS: Entretanto, na carta afirma-se que “Num mundo que muda à velocidade que tem sido bem evidente nas últimas semanas, é preciso agir no sentido correcto e não encontrar desculpas para ficar parado”, ou seja, parece que se pretende utilizar a actual crise financeira como mais um argumento para justificar este projecto. Curioso para dizer o mínimo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

We Need to Recapitalize the Banks

É o título de um excelente artigo do Edmund Phelps no WSJ que recomendo:
(http://online.wsj.com/article/SB122282719885793047.html) e do qual, para além das dúvidas quanto à eficácia do plano proposto (na linha do que tem vindo a ser dito por Krugman e outros - ver post anterior) e da sugestão de recapitalização dos bancos através de injecção de fundos em troca de warrants. retiro a seguinte frase: «The end of the speculative fever and the credit crunch each have structural effects on the real prices of business assets, real wages, employment and unemployment. As I see it, the former has pushed up the normal, or "natural," volume of structural unemployment. The latter (and the excess houses) is pushing the economy into a temporary slump. It will last as long as required for the banks' self-healing and government therapy to pull us out of it and into the neighborhood of our new, postboom normalcy.»

De Wall Street para Main Street

Sabemos que as coisas estão más quando uma quebra de 15,6% nas vendas é considerado um bom resultado (http://www.cnbc.com/id/26978669/for/cnbc/) e uma empresa com uma capitalização de 245 mil milhões de dólares e rating AAA anuncia "plans to raise $15 billion through stock sales to improve liquidity". As vendas de automóveis são um indicador dos efeitos devastadores que a restrição do crédito pode ter na economia e os planos da GE das dificuldades tremendas que as empresas estão (irão) sentir para refinanciar os seus passivos e continuar a investir. Sinais claros de que a crise já está (e irá) afectar a dita "economia real", a questão que se coloca é se o plano que vier a ser aprovado (continuo convencido que acabará por ser) é suficiente.
Sobre isso tem sido interessante acompanhar o que vai sendo dito por Krugman (http://krugman.blogs.nytimes.com/) e outros que consideram que o verdadeiro problema não é de liquidez mas sim de solvência. E, com efeito, tudo indica que os problemas de liquidez são um sintoma das dúvidas fundadas quanto à solvência das instituições e portanto qualquer solução terá que passar por uma recapitalização dos bancos o que implica que para funcionar o plano tem de implicar a compra de activos acima do seu "valor de mercado" (que pode, ou não, estar exageradamente baixo) por uma margem suficientemente elevada, o que não é certo que o plano permita fazer e é, em grande medida, contraditório com o marketing do plano feito pela administração americana.

Indicador da indústria transmformadora nos EUA (ISM)

situou-se em 43,5 em Setembro contra 49,9 no mês anterior (valores inferiores a 50 indicam uma contração no sector) enquanto que a Ford anunciou que terá tido uma quebra de 34% das vendas de veículos automóveis face ao mesmo mês do ano anterior.

Enquanto nos EUA tentam "salvar o plano de salvamento"

Foi hoje conhecido o indice Case-Shiller relativo ao mês de Julho que revela que, em média, nos últimos 12 meses os preços das casas nas 20 maiores cidades os EUA caíram 16,3%, ajustando do efeito da inflação temos uma queda de 20,7%. Apesar disso os preços reais ainda estão 28,4% acima dos que se verificavam em Jan 2008 o que conjugado com os indicadores relativos ao stock de casas para venda e a situação dos mercados financeiros aponta para uma continuação do processo de "ajustamento" no mercado imobiliário norte-americano.

Entretanto foram ontem divulgados na Europa os indicadores de confiança relativos ao mês de Setemebro que apontam para uma degradação acentuada da situação económica, salientando-se pela negativa a evolução no Reino Unido e em Espanha onde o indicador de sentimento económico estão nos níveis mais baixos desde, respectivamente, 1993 e 1991 o que parece confirmar que estes países estão já em recessão. Nos outros 3 grandes países da União verificou-se uma continuação da degradação da situação na Alemanha e uma ligeira recuperação na França e Itália depois das quebras acentuadas verificadas em Julho e Agosto. De salientar, ainda, que o indicador de confiança da indústria caíu nestes 5 países.

Em Portugal, apesar de ligeira recuperação da confiança dos consumidores (associada a uma apreciação não tão negativa da evolução dos preços) verificou-se uma nova degradação do indicador de sentimento económico com uma redução significativa da confiança na indústria onde se verificou a continuação da degradação das encomendas do exterior.

Entretanto, continuando o esforço notável de melhoria da informação estátística nacional, o INE divulgou hoje pela primeira vez as contas nacionais trimestrais por sector institucional (período 1999Q1 2008Q2) que revelam que a poupança bruta nacional se continua a degradar (11,0% nos últimos 4 trimestres - 2007Q3 a 2008Q2 - quando em 1995 era 20%) muito por "culpa" da evolução da poupança das famílias (6,2% nos últimos 4 trimestres quando em 1995 se situava nos 14,1%). Conjugando os dados agora divulgados com os publicados pelo Banco de Portugal o nível de endividamento das famílias situava-se no final de Junho em cerca de 124% do rendimento disponível (em 1995 este indicador era cerca de 40%).