Ontem foi um dia de fortes quedas nas bolsas de todo o mundo que acabou por ser um pouco atenuado pela subida dos índices dos EUA na última hora. Pessoalmente considero interessante de a descida ter abrangido todos os sectores quase por igual não se concentrando particularmente no sector financeiro, indicador de que o mercado está (finalmente) a começar a descontar os efeitos da actual crise financeira sobre a economia em geral.
Entretanto a crise financeira continua a fazer vítimas com os bancos britânicos no centro das notícias hoje, surgindo notícias de um "investimento" do Governo Reino Unido de 79 mil milhões de dólares (http://www.cnbc.com/id/27062494).
E os bancos centrais recorrem a todas as armas do arsenal para assistir os mercados e equacionam medidas extraordinárias. A Reserva Federal anunciou ontem (http://www.federalreserve.gov/newsevents/press/monetary/20081006a.htm) que vai passar i) a pagar juros sobre as reservas dos bancos - o que reduz o custo de oportunidade de manter essas reservas mas trata-se sobretudo de medida técnica em virtude da "escassez" de títulos do tesouro para intervir no mercado para que a federal funds rate não desça substancialmente da taxa de referência; ii) aumentar substancialmente a liquidez concedida através dos leilões TAF e iii) autorização para que um banco adquira activos de fundos monetários numa clara tentativa de suportar estes fundos. E no que constituiria um passo (tanto quanto sei) sem precendentes estará a ser equacionado pela Reserva Federal e pelo Tesouro a possibilidade de criar um fundo para adquirir papel comercial (http://www.cnbc.com/id/27060257).
Entretanto o banco central da Austrália anunciou um corte de 1 ponto percentual nas taxas de juro e os mercados imploram por cortes de taxas nos EUA, no Reino Unido e na Europa. E é quase certo que os vão ter, a questão é saber se esses cortes vão surgir nas próximas reuniões ou ainda antes e, sobretudo, se nas actuais condições do mercado monetário e de crédito essas descidas terão impacto sobre a actividade económica (é bom recordar que desde Setembro 2007 a Reserva Federal já reduziu a sua taxa de referência de 5,25% para os 2%).
terça-feira, 7 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
Links interessantes
com muitos gráficos sobre a crise no mercado imobiliário americano: http://www.milkeninstitute.org/10022008slides.pdf. Recomendo.
PS: Entretanto, através do seu blog Krugman teve a gentileza de disponibilizar os seus slides sobre uma apresentação que fará amanhã sobre os riscos de contágio http://www.princeton.edu/~pkrugman/contagion.pdf.
E já agora deixo também aqui um link sobre a discussão da regra "mark-to-market" (http://www.rgemonitor.com/globalmacro-monitor/253859/should_mark_to_market_meet_its_maker), que me faz recordar a famosa frase de Churchill de que (cito de memória) "a Democracia é o pior dos regimes à excepção de todos os outros".
PS2: Aqui vai a citação integral: "Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time."
PS: Entretanto, através do seu blog Krugman teve a gentileza de disponibilizar os seus slides sobre uma apresentação que fará amanhã sobre os riscos de contágio http://www.princeton.edu/~pkrugman/contagion.pdf.
E já agora deixo também aqui um link sobre a discussão da regra "mark-to-market" (http://www.rgemonitor.com/globalmacro-monitor/253859/should_mark_to_market_meet_its_maker), que me faz recordar a famosa frase de Churchill de que (cito de memória) "a Democracia é o pior dos regimes à excepção de todos os outros".
PS2: Aqui vai a citação integral: "Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time."
Mais uma "nacionalização" à vista...
O Hypo Bank anunciou que o plano de salvamento, em que o BCE e Bundesbank iriam "contribuir" com 20 mil milhões de euros e um grupo de bancos com 15 mil milhões, falhou porque os bancos participantes decidiram retirar o seu apoio. A dimensão das necessidades de liquidez (?) que poderão ascender a 100 mil milhões de euros (!!!) até ao final de 2009 é impressionante (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aTzH1395FM8s).
Entretanto, a declaração de Gordon Brown de "a mensagem principal que deve sair desta reunião (cimeira do G4 europeia) é a de que nenhum banco viável e sólido, deve falir com base numa falta de liquidez" não se me afigura nada tranquilizadora pois é cada vez mais óbvio que estamos perante um problema de solvência do sistema financeiro internacional de que a liquidez é sobretudo um sintoma (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1344928).
Igualmente reveladora é a afirmação de Gordon Brown de que “Cada um de nós deverá definir nesta reunião o que se pode fazer para garantir a segurança das empresas dos nossos países" e de Merkel de que "os Estados europeus devem assumir as suas responsabilidades", que aponta para um intervenção Estado a Estado e não europeia. Ou seja tudo indicia que a Europa vai prosseguir com o "modelo Fortis" ou seja trabalhar em conjunto para encontrar uma solução mas cada país vai ter que assumir os custos relativos à intervenção nas suas instituições nacionais. Politicamente, compreende-se que assim seja pois seria certamente dificl convencer os cidadãos-eleitores de outros Estados-Membros a partilhar os custos de uma intervenção nos bancos de outros Estados, mas pode levar a dificuldades e ser fonte de tensões de que a decisão irlandesa de garantir todos os depósitos dos seus bancos, o que obviamente é um incentivo à deslocalização de depósitos (designadamente de grandes instituições como fundos de pensões) de outros bancos para os bancos irlandeses, poderá ter sido um primeiro exemplo.
Entretanto, a declaração de Gordon Brown de "a mensagem principal que deve sair desta reunião (cimeira do G4 europeia) é a de que nenhum banco viável e sólido, deve falir com base numa falta de liquidez" não se me afigura nada tranquilizadora pois é cada vez mais óbvio que estamos perante um problema de solvência do sistema financeiro internacional de que a liquidez é sobretudo um sintoma (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1344928).
Igualmente reveladora é a afirmação de Gordon Brown de que “Cada um de nós deverá definir nesta reunião o que se pode fazer para garantir a segurança das empresas dos nossos países" e de Merkel de que "os Estados europeus devem assumir as suas responsabilidades", que aponta para um intervenção Estado a Estado e não europeia. Ou seja tudo indicia que a Europa vai prosseguir com o "modelo Fortis" ou seja trabalhar em conjunto para encontrar uma solução mas cada país vai ter que assumir os custos relativos à intervenção nas suas instituições nacionais. Politicamente, compreende-se que assim seja pois seria certamente dificl convencer os cidadãos-eleitores de outros Estados-Membros a partilhar os custos de uma intervenção nos bancos de outros Estados, mas pode levar a dificuldades e ser fonte de tensões de que a decisão irlandesa de garantir todos os depósitos dos seus bancos, o que obviamente é um incentivo à deslocalização de depósitos (designadamente de grandes instituições como fundos de pensões) de outros bancos para os bancos irlandeses, poderá ter sido um primeiro exemplo.
sábado, 4 de outubro de 2008
Deterioração do emprego nos EUA no mês de Setembro
Apesar da taxa de desemprego se manter nos 6,1% (na verdade subiu de 6,05% para 6,12% ou seja 0,07%) os números do emprego nos EUA foram mais um indicador das dificuldades que a economia americana está a atravessar com uma redução de 159 mil trabalhadores assalariados (o nono mês consecutivo de queda e uma redução de quase 1 milhão de empregos no sector privado desde Novembro de 2007).
A deterioração da situação no mercado de trabalho na medida em que aumenta as dificuldades das famílias para fazer face aos seus compromissos financeiros (numa altura em que a taxa de esforço financeiro se situa em níveis historicamente muito elevados http://www.federalreserve.gov/releases/housedebt/default.htm) tenderá a constituir mais um factor de agravamento situação do sistema financeiro numa altura em que surgiram sinais bastante preocupantes de dificuldades na obtenção de crédito (nomeadamente através da emissão de papel comercial) - ver http://www.economist.com/opinion/displayStory.cfm?source=hptextfeature&story_id=12342237.
A deterioração da situação no mercado de trabalho na medida em que aumenta as dificuldades das famílias para fazer face aos seus compromissos financeiros (numa altura em que a taxa de esforço financeiro se situa em níveis historicamente muito elevados http://www.federalreserve.gov/releases/housedebt/default.htm) tenderá a constituir mais um factor de agravamento situação do sistema financeiro numa altura em que surgiram sinais bastante preocupantes de dificuldades na obtenção de crédito (nomeadamente através da emissão de papel comercial) - ver http://www.economist.com/opinion/displayStory.cfm?source=hptextfeature&story_id=12342237.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
EUA já em recessão ?
Os números das vendas de automóveis em Setembro situaram-se 23,4% abaixo dos registados um ano antes (considerando o período Jan-Set a queda face ao período homólogo é de 12,8%), considerando os dados conhecidos para os meses de Jul e Ago já indicavam uma quebra do consumo superior a 1% bem como os indicadores de produção industrial (-1,6% na média móvel 3 meses - valores anualizados) e construção (-4,8%) não parece muito arriscado apostar uma quebra do PIB neste trimestre.
O custo de oportunidade do Magalhães
Em carta publicada hoje no Público o coordenador adjunto do Plano Tecnológico vem defender que “O Magalhães vale mais do que dúvidas e polémicas estéreis. O Magalhães vale pelo brilho nos olhos das crianças que o recebem e vale pela oportunidade que lhes é dada de acreditar no futuro e construir algo de novo”.
Fico, pois, feliz por saber para o Governo o mais importante é a felicidade das crianças e que não serão questões ou dúvidas sobre a efectividade dos recursos aplicados ou sobre o financiamento do projecto que vão impedir o Governo de garantir essa felicidade e destruir a esperança no futuro.
É óbvio que em vez de se ter optado por “oferecer” portáteis, poder-se-ia ter recorrido ao testado método utilizado pelo Pai Natal de pedir às criancinhas que formulassem uma lista de desejos com base na qual seria oferecidas “prendas” às crianças. Tal teria eventualmente maximizado a felicidade das crianças mas o Governo também quer que as nossas crianças acreditem no futuro e construam “algo de novo”. E sobre como é que o Magalhães vai contribuir para isso, somos elucidados que “a tecnologia, só por si, não é uma varinha mágica para resolver problemas mas é um fortíssimo catalisador de mudança que ajudará à criação de conteúdos e à participação de muito mais portugueses na rede global”. Ou seja, só por si não, mas talvez combinada com outras coisas o Magalhães possa funcionar uma “varinha mágica” (o que não é de estranhar, pois afinal nas histórias de encantar as varinhas mágicas só funciona quando se conhecem as “palavras mágicas” e “mudança”, “esperança” e “catalisador” são, pelo menos, tão boas como outras quaisquer).
É-nos, no entanto, dito, que o projecto “Vale sobretudo porque coloca o computador e a Internet ao alcance de todas as crianças, e não apenas daquelas cujas famílias podem pagar preços de mercado”. Ou seja, existia uma falha de mercado que impedia que todas as crianças tivessem acesso a computador e à Internet que o Governo se apressou a suprir, mas mesmo aceitando que essa falha existia não se explica porque razão se considerou que esta seria a melhor forma de solucionar essa falha (desde logo não se compreende porquê subsidiar o acesso a todos e não apenas aqueles cujas famílias não podiam pagar o preço de mercado.
E muito francamente duvido que tenha sequer existido uma ponderação adequada dos benefícios, pois o que nos é dito é para não nos preocuparmos pois “o Magalhães não surge em vez de outras coisas que faltam ao sistema de ensino”, ou seja procura-se fazer passar a mensagem de que estaríamos perante o caso raro de “um almoço grátis” e, portanto, não nos precisamos de preocupar com minudências como o custo de oportunidade.
A tranquilidade que esta afirmação me introduz é infelizmente contrariada pela de que “Não há memória de um investimento desta ordem, nem há nenhum pais que tenha feito nada parecido”, pois não havendo custos não sei se podemos falar em “investimento” (ou tem custos elevados e implica necessariamente sacrificios noutras áreas - ou dos contribuintes - ou não tem e o investimento é nulo ou insignificante) e fica porque explicar porque os outros países nunca fizeram nada semelhante… a não ser que o Governo tenha descoberto alguma solução milagrosa, caso em que será de esperar que na próxima reunião da União Europeia a divulgue e depressa veremos surgirem programas semelhantes noutros países da Europa.
PS: Entretanto, na carta afirma-se que “Num mundo que muda à velocidade que tem sido bem evidente nas últimas semanas, é preciso agir no sentido correcto e não encontrar desculpas para ficar parado”, ou seja, parece que se pretende utilizar a actual crise financeira como mais um argumento para justificar este projecto. Curioso para dizer o mínimo.
Fico, pois, feliz por saber para o Governo o mais importante é a felicidade das crianças e que não serão questões ou dúvidas sobre a efectividade dos recursos aplicados ou sobre o financiamento do projecto que vão impedir o Governo de garantir essa felicidade e destruir a esperança no futuro.
É óbvio que em vez de se ter optado por “oferecer” portáteis, poder-se-ia ter recorrido ao testado método utilizado pelo Pai Natal de pedir às criancinhas que formulassem uma lista de desejos com base na qual seria oferecidas “prendas” às crianças. Tal teria eventualmente maximizado a felicidade das crianças mas o Governo também quer que as nossas crianças acreditem no futuro e construam “algo de novo”. E sobre como é que o Magalhães vai contribuir para isso, somos elucidados que “a tecnologia, só por si, não é uma varinha mágica para resolver problemas mas é um fortíssimo catalisador de mudança que ajudará à criação de conteúdos e à participação de muito mais portugueses na rede global”. Ou seja, só por si não, mas talvez combinada com outras coisas o Magalhães possa funcionar uma “varinha mágica” (o que não é de estranhar, pois afinal nas histórias de encantar as varinhas mágicas só funciona quando se conhecem as “palavras mágicas” e “mudança”, “esperança” e “catalisador” são, pelo menos, tão boas como outras quaisquer).
É-nos, no entanto, dito, que o projecto “Vale sobretudo porque coloca o computador e a Internet ao alcance de todas as crianças, e não apenas daquelas cujas famílias podem pagar preços de mercado”. Ou seja, existia uma falha de mercado que impedia que todas as crianças tivessem acesso a computador e à Internet que o Governo se apressou a suprir, mas mesmo aceitando que essa falha existia não se explica porque razão se considerou que esta seria a melhor forma de solucionar essa falha (desde logo não se compreende porquê subsidiar o acesso a todos e não apenas aqueles cujas famílias não podiam pagar o preço de mercado.
E muito francamente duvido que tenha sequer existido uma ponderação adequada dos benefícios, pois o que nos é dito é para não nos preocuparmos pois “o Magalhães não surge em vez de outras coisas que faltam ao sistema de ensino”, ou seja procura-se fazer passar a mensagem de que estaríamos perante o caso raro de “um almoço grátis” e, portanto, não nos precisamos de preocupar com minudências como o custo de oportunidade.
A tranquilidade que esta afirmação me introduz é infelizmente contrariada pela de que “Não há memória de um investimento desta ordem, nem há nenhum pais que tenha feito nada parecido”, pois não havendo custos não sei se podemos falar em “investimento” (ou tem custos elevados e implica necessariamente sacrificios noutras áreas - ou dos contribuintes - ou não tem e o investimento é nulo ou insignificante) e fica porque explicar porque os outros países nunca fizeram nada semelhante… a não ser que o Governo tenha descoberto alguma solução milagrosa, caso em que será de esperar que na próxima reunião da União Europeia a divulgue e depressa veremos surgirem programas semelhantes noutros países da Europa.
PS: Entretanto, na carta afirma-se que “Num mundo que muda à velocidade que tem sido bem evidente nas últimas semanas, é preciso agir no sentido correcto e não encontrar desculpas para ficar parado”, ou seja, parece que se pretende utilizar a actual crise financeira como mais um argumento para justificar este projecto. Curioso para dizer o mínimo.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
We Need to Recapitalize the Banks
É o título de um excelente artigo do Edmund Phelps no WSJ que recomendo:
(http://online.wsj.com/article/SB122282719885793047.html) e do qual, para além das dúvidas quanto à eficácia do plano proposto (na linha do que tem vindo a ser dito por Krugman e outros - ver post anterior) e da sugestão de recapitalização dos bancos através de injecção de fundos em troca de warrants. retiro a seguinte frase: «The end of the speculative fever and the credit crunch each have structural effects on the real prices of business assets, real wages, employment and unemployment. As I see it, the former has pushed up the normal, or "natural," volume of structural unemployment. The latter (and the excess houses) is pushing the economy into a temporary slump. It will last as long as required for the banks' self-healing and government therapy to pull us out of it and into the neighborhood of our new, postboom normalcy.»
(http://online.wsj.com/article/SB122282719885793047.html) e do qual, para além das dúvidas quanto à eficácia do plano proposto (na linha do que tem vindo a ser dito por Krugman e outros - ver post anterior) e da sugestão de recapitalização dos bancos através de injecção de fundos em troca de warrants. retiro a seguinte frase: «The end of the speculative fever and the credit crunch each have structural effects on the real prices of business assets, real wages, employment and unemployment. As I see it, the former has pushed up the normal, or "natural," volume of structural unemployment. The latter (and the excess houses) is pushing the economy into a temporary slump. It will last as long as required for the banks' self-healing and government therapy to pull us out of it and into the neighborhood of our new, postboom normalcy.»
Subscrever:
Mensagens (Atom)