quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Vantagens da crise

Os economistas têm uma capacidade notável para descobrir benefícios mesmo nas piores situações.
No Vox (http://www.voxeu.org/) Esther Duflo considera que a crise pode fazer com que seja mais fácil às empresas de outros sectores atrair as "mentes brilhantes" que antes preferiam trabalhar em Wall Street conduzindo a uma melhor afectação do talento e Nicholas Bloom estima para o próximo ano uma contração do PIB de 3% e um aumento de 3 milhões de desempregados (quer na Europa quer nos EUA) - cenário que considera optimista - mas não deixa de recordar o ponto positivo de que essa recessão contribuirá para um decréscimo substancial das emissões de CO2.

Sinais positivos

Apesar da descida coordenada das taxas de juro, as bolsas americanas fecharam em queda com o S&P500 a descer 1,1% numa sessão que ficou marcada pela volatilidade. Significativamente é a 6 sessão consecutiva de descida cifrando-se em 15,6% a quebra acumulada desde 30-Setembro.

Entretanto, cumpre salientar que me parece que o plano inglês de injecção de capital nos bancos me parece correcto e que nos EUA o Secretário do Tesouro indicou estar a preparar uma intervenção semelhante (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aBkx1kVieIqI&refer=home). Ou seja, parece haver uma consciência crescente de que a solução para actual crise terá forçosamente que passar por uma recapitalização dos bancos que o sector privado não está em condições para concretizar e em que, portanto, será indispensável envolver uma intervenção pública significativa.

Pessoalmente estou pois mais optimista do que ontem ou mesmo hoje de manhã. Trata-se, porém, de um optimismo relativo pois embora considere que estão a ser desenvolvidos passos no sentido correcto: 1) Estes são ainda insuficientes, provavelmente os montantes anunciados nos EUA e no Reino Unido não serão suficientes e será necessário que os outros países europeus tomem medidas semelhantes; 2) existe um risco crescente de risco sistémico derivado de dificuldades noutros países (Islândia, América Latina, Ásia) ou, por exemplo, de posições de hedge funds (além da situação da Islância - que era previsível - existem alguns sinais precoupantes como a desvalorização do won da Coreia do Sul e do rand sul-africano que podem indiciar uma alteração qualitativa da actual crise); e, 3) uma recessão nos EUA, Reino Unido e Zona Euro é inevitável e muito provavelmente será relativamente severa.

Actualização: Sobre a Islândia a Bloomberg noticia que "The central bank today ditched a currency peg equivalent to 131 krona per euro after failing to convince investors it could maintain it. That announcement came shortly after the government said it canceled the purchase of a 75 percent stake in Glitner and handed the lender over to regulators, saying it was in bigger trouble than previously estimated. (...) The central bank said yesterday it would try to fix the trade- weighted krona index at 175, corresponding to 131 against the euro. Nordea Bank AB, the biggest Scandinavian lender, said the price suggested by bid/ask spreads in pre-market trading was 255 per euro, 49 percent below the rate targeted by the bank.
(...) The debts of the Icelandic banking system are too big for the government to repay. ``There is no way that the Icelandic population can assume responsibility for the private debt'' the banks have built up, Haarde said."
Sobre a Coreia: "South Korea's won slumped to the lowest in a decade as a seizure in global credit markets forced banks and companies to tap currency exchanges to meet their dollar-financing requirements (...) The won fell as much as 5.1 percent today"
E os sinais do México e Brasil também não são nada tranquilizadores: "Brazil sold dollars for the first time in five years and Mexico offered $2.5 billion in a bid to shore up currencies that have been ravaged by the worst financial crisis since the Great Depression
Central bankers stepped into the foreign exchange market after Mexico's peso tumbled as much as 13.8 percent, its biggest intraday drop since a government devaluation in 1994, and Brazil's real sank as much as 9.4 percent to a three-year low. Both currencies pared losses after policy makers announced the dollar sale plans. (...) The peso close little changed at 12.3225 per dollar after earlier touching a record low of 14.2927. The peso has sunk 20 percent from a six-year high reached Aug. 4. The real fell 1 percent to 2.3342 per dollar, extending its decline this month to 18.4 percent."

Actualização2: E no Paquistão as coisas também não estão bem: "State Bank of Pakistan, the nation's central bank, pumped foreign currency into the market to prop up the rupee, which fell to a record low against the U.S. dollar. (...) Standard & Poor's this week cut the nation's long-term foreign currency rating by two levels to CCC+, a grade that ranks it above only the Seychelles in terms of creditworthiness, and said further reductions may be necessary. (...) Pakistan's foreign-exchange reserves have dropped 67 percent in the past year to about $4.7 billion, while the nation has about $3 billion of debt-servicing costs due in the coming year. Pakistan is the world's riskiest government borrower according to credit-default swap prices from CMA Datavision."

Descida das taxas de juro

Acabou de ser anunciada uma descida coordenada de 50 pontos base (0,5 pontos percentuais) das taxas de juro nos EUA , Zona Euro, Reino Unido, Canadá, Suécia e Suíça (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345312).

Teoricamente deveria ser o suficiente para os mercados recuperarem consideravelmente dos mínimos (dado as quedas dos últimos dias não seria de excluir uma subida de 5-10%) e acalmarem por uns dias mas a reacção inicial dos mercados , embora positiva não está a ser tão entusiástica como se esperaria, talvez porque: i) a descida das taxas no Reino Unido e nos EUA já era antecipada e até, pelo menos no caso do Reino Unido, terá ficado abaixo das expectativas; ii) o ambiente psicológico é bastante negativo e os mercados podem interpretar esta acção como um sinal de desespero.

Irlanda em recessão

O Eurostat divulgou a segunda estimativa para o PIB no 2.º trimestre 2008 que apontam para uma queda de 0,2% na zona euro (idêntico à primeira estimativa) e uma estagnação do PIB na UE 27 (a estimativa anterior era -0,1%). Os dados divulgados confirmam o 2º trimestre consecutivo de queda do PIB na Estónia e Letónia e também na Irlanda. Além destes países verificaram-se quedas do PIB na Alemanha (-0,5%), França e Itália (-0,3%). As estimativas para a Espanha e Reino Unido mantiveram-se nos 0,1% e 0%, respectivamente.

A um passo do abismo ?

O Nikkei caiu 9,4%.

A Islândia está à beira da bancarrota.

As bolsa de Moscovo foi suspensa até dia 10 de Outubro, enquanto que a bolsa de Jacarta foi suspensa "indefenidamente"

Depois da Espanha ter criado um fundo de 30 mil milhões de euros, o Reino Unido anunciou que vai injectar 50 mil milhões de libras no sistema bancário.

Pode parecer muito mas o FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/survey/so/2008/NEW100708A.htm) estima que "losses on U.S.-based loans and securities may rise to some $1.4 trillion—a significant increase from the estimate of $945 billion in the April 2008 GFSR", conclui que "Financial institutions need to raise more capital - an estimated $ 675 billion (...) Without the ability to obtain new capital from private markets, recapitalization using the public sector balance sheet should now be considered as solvency concerns have led to a seizing up of interbank funding markets" e alerta que a crise está a espalhar-se para os mercados emergentes.

Basta olhar para as bolsas para sentir que o pânico está definitivamente a instalar-se e começa a ser evidente a necessidade de tomar medidas imediatas que evitem o colapso do sistema financeiro. E as medidas mais óbvias são: i) a descida substancial e imediata das taxas de juro de referência na zona Euro, EUA e Reino Unido e ii) nacionalização (através de injecções de capital) de grande parte do sistema bancário.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Papel Comercial

A criação de um fundo para apoiar o papel comercial e as referências ao papel comercial despertaram a minha curiosidade para a dimensão do que estava a acontecer e descobri que nas últimas três semanas (até 1 de Outubro) o volume de papel comercial caiu 215,2 mil milhões de dólares (http://www.federalreserve.gov/releases/cp/outstandings.htm).

Discurso do presidente da Reserva Federal

O presidente da Reserva Federal faz uma excelente análise da situação económica nos EUA (http://www.federalreserve.gov/newsevents/speech/bernanke20081007a.htm):

"Economic activity had shown signs of decelerating even before the recent upsurge in financial-market tensions. As has been the case for some time, the housing market continues to be a primary source of weakness in the real economy as well as in the financial markets. However, the slowdown in economic activity has spread outside the housing sector. Private payrolls have continued to contract, and the declines in employment, together with earlier increases in food and energy prices, have eroded the purchasing power of households. This sluggishness of real incomes, together with tighter credit and declining household wealth, is now showing through more clearly to consumer spending. Indeed, since May, real consumer outlays have contracted significantly. Meanwhile, in the business sector, worsening sales prospects and a heightened sense of uncertainty have begun to weigh more heavily on investment spending as well.

The intensification of financial turmoil and the further impairment of the functioning of credit markets seem likely to increase the restraint on economic activity in the period ahead. Even households with good credit histories are now facing difficulties obtaining mortgage loans or home equity lines of credit. Banks are also reducing credit card limits, and denial rates on automobile loan applications reportedly are rising. Businesses, too, are confronting diminished access to credit. For example, disruptions in the commercial paper market and tightening of bank lending standards have made it more difficult for businesses to obtain the working capital they need to meet everyday operating expenses such as payrolls and inventories.
All told, economic activity is likely to be subdued during the remainder of this year and into next year. The heightened financial turmoil that we have experienced of late may well lengthen the period of weak economic performance and further increase the risks to growth."

Perante este cenário não é de estranhar que as bolsas nos EUA tenham caído mais de 5% com o S&P500 a fechar abaixo dos 1000 pontos. Esta queda acentuou-se na última hora de negociação e depois do fecho tivemos um início da "earnings season" com a Alcoa (um dos componentes do Dow http://www.cnbc.com/id/27071615) a ficar muio abaixo das expectativas (37 centimos por acção contra os 53 esperados), pelo que é de esperar que a Europa abra amanhã em forte baixa.

Finalmente uma nota para as conclusões do Conselho ECOFIN (http://www.ue2008.fr/PFUE/lang/en/accueil/PFUE-10_2008/PFUE-07.10.2008/pid/14239)
que define um conjunto de princípios mais ou menos vagos e genéricos que serão aplicados a nível nacional, sendo de salientar que parece haver uma especial preocupação com os eventuais efeitos adversos das decisões de outros Estados-Membros. Quanto ao resto é do melhor europês com destaque para a conclusão de que "fiscal prudence is necessary to support confidence notably in view of the ageing of the population and to ensure a good mix between fiscal and monetary policy. The 2005 reformed Stability and growth Pact is the adequate framework and should be fully applied. It contains flexibility to allow for fiscal policy to play its normal stabilisation function. In particular, relatively large European automatic stabilisers can help cushion the slowdown, while respecting the 3% of GDP deficit threshold. In countries facing
more severe slowdown and where room for manoeuvre exists, temporary and targeted
measures may be taken, notably towards those most affected by the current economic
situation. They would also have to take into account the specific challenges of the
country concerned, i.a. the need to recover competitiveness." (que é exercício de equilíbrio notável entre a defesa da ortodoxia orçamental e a abertura para políticas orçamentais mais activas).

Entretanto deixo um link para o artigo que Krugman com um modelo sobre os mecanismos de transmissão da actual crise (http://www.princeton.edu/~pkrugman/finmult.pdf). A ler.