sábado, 11 de outubro de 2008

EUA anunciam plano para recapitalizar o sistema financeiro

O Secretário de Estado do Tesouro dos EUA anunciou que o G-7 acordou um "plano de acção agressivo" (sem no entanto apresentar detalhes) e que os EUA vão injectar capital nos bancos "o mais depressa possível" http://www.cnbc.com/id/15840232?video=885439561&play=1.

Entretanto foi anunciada uma cimeira extraordinária dos chefes de Estado e de governo dos países da zona Euro para "definir em conjunto um plano de acção da zona euro com o Banco Central Europeu (BCE) para enfrentar a crise financeira” (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345638).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Algumas notas

Hoje tivemos mais uma sessão marcada pela volatilidade com o S&P500 a transaccionar entre um mínimo de 839,8 e um máximo de 936,36 pontos ou seja num intervalo de quase 100 pontos e mais de 10% o que é verdadeiramente impressionante. Apesar de ter contido as perdas fechando com uma queda de "apenas" 1,2% convém não esquecer que esta foi a 8.ª sessão consecutiva de queda e que este mês o S&P500 caiu quase 23% e está 42,5% abaixo do máximo histórico (cotação de fecho) registado em 9-Out-2007 ou seja há um ano.

Entretanto os mercados monetário e de crédito permaneceram bloqueados (a Euribor desceu mas apenas marginalmente, a Libor do dólar subiu) e assistiu-se a um agravamento substancial da situação nos mercados emergentes: Ásia, América Latina e Europa de Leste com um claro aumento da turbulência nos mercados cambiais.

Uma situação a seguir com atenção é o comportamento das obrigações do tesouro americano. Apesar da quebra da bolsa, do aumento dos riscos de recessão e da redução dos riscos de inflação os yields das obrigações a 10 anos aumentaram pela 4.º dia consecutivo, o que pode resultar 1) da crise de liquidez estar a forçar liquidações dos portfolios de obrigações e/ou 2) dos mercados estarem já a antecipar o impacto das intervenções públicas para resgatar os bancos sobre o stock de dívida pública.

Entretanto, as notícias do G-7 e dos EUA indiciam que os políticos estão com sérias dificuldades em definir iniciativas que reanimem o mercado de crédito e não querendo ser pessimista a minha sensação é que a de que hoje a evolução só não foi mais negativa porque o mercado está na expectativa de que surjam essas medidas.

Bolsas afundam e riscos aumentam

Apesar das quedas pronunciadas (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345550) não estamos a assistir a queda descontrolada. Ao contrário do que ocorre noutros países nomeadamente na Rússia no extermo oriente (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601095&sid=aIRkZtjYd5FQ&refer=east_europe) na India (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601080&sid=anzsQUDoaTqU&refer=news), na Ucrania - onde o governo teve de assumir o controlo do 6.º banco do país e está numa situação muito delicada (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601095&sid=aDI2OvZSZBX0&refer=east_europe) e na Hungria (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601095&sid=aaHAbx5z5so0&refer=east_europe). Começa a ser evidente que alguns países (para além da Islândia) que provavelmente vão precisar de mais de uma década para superar esta crise e os riscos associados a toda esta turbulência são tremendos. A probabilidade de grandes instituições (bancos, seguradoras ou hedge funds) se defrontarem com uma posição insustentável é muito significativa.

O único ponto positivo é que apesar de se sentir a preocupação, não existe (ou pelo menos não é visível por enquanto) uma situação de pânico na Europa e dadas as proporções das quedas quase que podemos falar numa estranha tranquilidade, diria que predomina um sentimento de impotência e alguma incredulidade.

Update: Acabei agora de me aperceber que o S&P500 já caiu 22% neste mês. Se fechasse neste nível (909 pontos) seria o pior registo mensal desde, pelo menos, 1958 e seria a maior queda em 12 meses desde Setembro de 1974 (por muito pouco pois nesse mes registava-se uma queda anual de 41,4% face aos 41,3% actuais).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A raiz dos problemas

Numa dia em que, apesar da descida coordenada das taxas de juro por uma dezna de bancos centrais, se assistiu a mais uma sessão negativo nas bolsas europeias http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345475 e em que o S&P500 e o Dow cairam mais de 7% e as condições do mercado monetário não revelaram sinais positivos acho que o mais importante é tentarmos compreender o que está por detrás a suceder.

Assumamos um banco típico que financia o seu activo com 95% dívida (parte substancial de curto prazo) e 5% de capitais próprios. E imaginem que uma parte dos seus activos, por exemplo 30%, são créditos hipotecários. Os gestores deste banco acreditavam na máxima de que "Os preços do imobiliário nunca descem". Hoje em dia pode parecer absurdo mas devemos recordar que o Presidente da Reserva Federal Alan Greenspan disse por diversas vezes que "Housing price bubbles presuppose an ability of market participants to trade properties as they speculate about the future. But upon sale of a house, homeowners must move and live elsewhere. This necessity, as well as large transaction costs, are significant impediments to speculative trading and an important restraint on the development of price bubbles. Overall, while local economies may experience significant speculative price imbalances, a national severe price distortion seems most unlikely in the United States, given its size and diversity."
Sucede porém que inesperadamente (pelo menos para esses gestores, para os accionistas do banco e para os seus depositantes e credores) os preços das casas descem 10% e se descobre que os devedores não têm rendimentos (na verdade nunca ninguém se deu sequer ao trabalho de lhes perguntar - o banco tinha aderido à prática de conceder os designados empréstimos NINJA - No Income No job No Asset). Ou seja, os seus activos desvalorizam-se 3% e os capitais próprios passam a corresponder a apenas 2% dos seus activos, o risco de insolvência aumenta e o banco passa a ter dificuldade em obter financiamentos. A solução é obviamente aumentar o capital. Sucede porém que entretanto o mercado imobiliário continua a cair (entre outras razões porque este banco e outros tomaram posse das casas dos incumpridores e colocaram-nas no mercado) e os seus activos voltam a desvalorizar-se colocando o banco numa solução próxima da insolvência e que o banco não consegue reforçar os seus capitais próprios no mercado ficando com um rácio de solvabilidade de, digamos, 2,5%. Naturalmente que os seus credores, nomeadamente outros bancos vão voltar a ter relutância em emprestar-lhe fundos, colocando o banco numa situação de não poder satisfazer os seus compromissos de curto prazo porque não consegue fazer o roll-over da sua dívida. Ou seja, um problema de insolvência transformou-se num problema de liquidez. Os gestores do nosso banco só têm uma saída que é a de "liquidar" os seus activos, pelo que vão reduzir o crédito concedido (desalavancar o seu balanço) de forma a tentar recuperar os seus rácios de solvabilidade e tentar obter o máximo de meios líquidos possíveis para poder fazer face a levantamentos de depositantes e ao reembolso dos passivos que forem vencendo. A questão é que a recuperação do rácio de solvabilidade de 5% teria que reduzir os seus activos (créditos) para metade. Sucede ainda que o nosso banco não é o único nesta situação e portanto todos os bancos tendem a recusar ceder crédito a outros bancos (ou a só fazê-lo por prazos muito curtos e a taxas elevadas) porquanto: 1) têm receio que os bancos a quem emprestarem fundos caiam numa situação de insolvência; 2) pretendem conservar os seus fundos para fazer face a levantamentos de depósitos e rembolsar os passivos que forem vencendo já que sabem que será muito dificil fazer o respectivo roll-over.
O banco centrais podem eliminar a justificação 2) com alguma facilidade, bastando garantir que disponibilizarão a liquidez necessária aos bancos solventes (cumprindo a sua função tradicional de "lender of last resort"). A eliminação da justificação 1) já implica, todavia, uma resposta mais heterodoxa e teoricamente pode ser prosseguida de duas formas: a) trocando os activos "arriscados" por activos seguros por forma a que os outros bancos deixem de ter dúvidas quanto à solvência dos bancos a quem emprestem - é esta basicamente a ideia subjacente ao plano Paulson; b) aumentando os capitais dos bancos por forma a que deixem de subsisitir dúvidas quanto à solvência dos bancos através de injecção de capitais - é isto basicamente que fizeram os belgas e holandeses e o Reino Unido está a tentar fazer.
Note-se que para que a opção a) funcione por si só seria necessário que os activos "arriscados" fossem comprados a um preço que permitam que os rácios dos bancos sejam satisfatórios. Ou seja, que esses activos sejam adquiridos por um preço superior ao (valor implicito) que os mercados lhes atribuem. A ideia do plano Paulson era a de que esses activos estariam a ser subavaliados pelo mercado e portanto seria possível que o Estado os adquirisse por um preço que permitisse simultaneamente assegurar a solvência dos bancos e sem custos para o Estado (na medida em que o Estado poderia recuperar o valor aplicado na aquisição através da venda desses activos quando o seu valor recuperasse ou mantendo-os até à maturidade).
Existem no entanto vários problemas (para além dos montantes colossais envolvidos): 1) a penalização dos accionistas e gestores que tem sido exigida implica que estes tentem fazer tudo para que os respectivos bancos não sejam auxiliados e que portanto tentem resolver por si só os seus próprios problemas contraindo o crédito e mantendo uma posição de liquidez muito forte; 2) na sequência dos problemas os mercados não estão dispostos a aceitar rácios de solvabilidade que se verificavam antes da crise (exigindo rácios superiores) o que implica igualmente cortes de activos; 3) este processo está associado uma destruição de riqueza considerável (redução do valor do imobiliário - que está na raiz do problema) e do valor dos títulos dos bancos agravada pelos efeitos indirectos resultantes dessa quebra no preço de outros activos; 4) a redução do crédito (ou, pelo menos da taxa de crescimento do crédito) e a destruição de riqueza referida é por si só suficiente para provocar uma desaceleração do crescimento (ou até mesmo uma recessão) que agrava a dificuldade de resolver o processo podendo mesmo criar-se um ciclo vicioso; 5) associado a este processo existe a necessidade de reafectação de recursos dentro da economia (nomeadamente dos sectores da construção e financeiro para outros sectores) e reequilíbrios das taxas de poupança-investimento a nível internacional.
Neste contexto, o melhor que se pode esperar é que o processo de ajustamento seja o menos caótico possível e que a recessão seja relativamente benigna.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Vantagens da crise

Os economistas têm uma capacidade notável para descobrir benefícios mesmo nas piores situações.
No Vox (http://www.voxeu.org/) Esther Duflo considera que a crise pode fazer com que seja mais fácil às empresas de outros sectores atrair as "mentes brilhantes" que antes preferiam trabalhar em Wall Street conduzindo a uma melhor afectação do talento e Nicholas Bloom estima para o próximo ano uma contração do PIB de 3% e um aumento de 3 milhões de desempregados (quer na Europa quer nos EUA) - cenário que considera optimista - mas não deixa de recordar o ponto positivo de que essa recessão contribuirá para um decréscimo substancial das emissões de CO2.

Sinais positivos

Apesar da descida coordenada das taxas de juro, as bolsas americanas fecharam em queda com o S&P500 a descer 1,1% numa sessão que ficou marcada pela volatilidade. Significativamente é a 6 sessão consecutiva de descida cifrando-se em 15,6% a quebra acumulada desde 30-Setembro.

Entretanto, cumpre salientar que me parece que o plano inglês de injecção de capital nos bancos me parece correcto e que nos EUA o Secretário do Tesouro indicou estar a preparar uma intervenção semelhante (http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=aBkx1kVieIqI&refer=home). Ou seja, parece haver uma consciência crescente de que a solução para actual crise terá forçosamente que passar por uma recapitalização dos bancos que o sector privado não está em condições para concretizar e em que, portanto, será indispensável envolver uma intervenção pública significativa.

Pessoalmente estou pois mais optimista do que ontem ou mesmo hoje de manhã. Trata-se, porém, de um optimismo relativo pois embora considere que estão a ser desenvolvidos passos no sentido correcto: 1) Estes são ainda insuficientes, provavelmente os montantes anunciados nos EUA e no Reino Unido não serão suficientes e será necessário que os outros países europeus tomem medidas semelhantes; 2) existe um risco crescente de risco sistémico derivado de dificuldades noutros países (Islândia, América Latina, Ásia) ou, por exemplo, de posições de hedge funds (além da situação da Islância - que era previsível - existem alguns sinais precoupantes como a desvalorização do won da Coreia do Sul e do rand sul-africano que podem indiciar uma alteração qualitativa da actual crise); e, 3) uma recessão nos EUA, Reino Unido e Zona Euro é inevitável e muito provavelmente será relativamente severa.

Actualização: Sobre a Islândia a Bloomberg noticia que "The central bank today ditched a currency peg equivalent to 131 krona per euro after failing to convince investors it could maintain it. That announcement came shortly after the government said it canceled the purchase of a 75 percent stake in Glitner and handed the lender over to regulators, saying it was in bigger trouble than previously estimated. (...) The central bank said yesterday it would try to fix the trade- weighted krona index at 175, corresponding to 131 against the euro. Nordea Bank AB, the biggest Scandinavian lender, said the price suggested by bid/ask spreads in pre-market trading was 255 per euro, 49 percent below the rate targeted by the bank.
(...) The debts of the Icelandic banking system are too big for the government to repay. ``There is no way that the Icelandic population can assume responsibility for the private debt'' the banks have built up, Haarde said."
Sobre a Coreia: "South Korea's won slumped to the lowest in a decade as a seizure in global credit markets forced banks and companies to tap currency exchanges to meet their dollar-financing requirements (...) The won fell as much as 5.1 percent today"
E os sinais do México e Brasil também não são nada tranquilizadores: "Brazil sold dollars for the first time in five years and Mexico offered $2.5 billion in a bid to shore up currencies that have been ravaged by the worst financial crisis since the Great Depression
Central bankers stepped into the foreign exchange market after Mexico's peso tumbled as much as 13.8 percent, its biggest intraday drop since a government devaluation in 1994, and Brazil's real sank as much as 9.4 percent to a three-year low. Both currencies pared losses after policy makers announced the dollar sale plans. (...) The peso close little changed at 12.3225 per dollar after earlier touching a record low of 14.2927. The peso has sunk 20 percent from a six-year high reached Aug. 4. The real fell 1 percent to 2.3342 per dollar, extending its decline this month to 18.4 percent."

Actualização2: E no Paquistão as coisas também não estão bem: "State Bank of Pakistan, the nation's central bank, pumped foreign currency into the market to prop up the rupee, which fell to a record low against the U.S. dollar. (...) Standard & Poor's this week cut the nation's long-term foreign currency rating by two levels to CCC+, a grade that ranks it above only the Seychelles in terms of creditworthiness, and said further reductions may be necessary. (...) Pakistan's foreign-exchange reserves have dropped 67 percent in the past year to about $4.7 billion, while the nation has about $3 billion of debt-servicing costs due in the coming year. Pakistan is the world's riskiest government borrower according to credit-default swap prices from CMA Datavision."

Descida das taxas de juro

Acabou de ser anunciada uma descida coordenada de 50 pontos base (0,5 pontos percentuais) das taxas de juro nos EUA , Zona Euro, Reino Unido, Canadá, Suécia e Suíça (http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345312).

Teoricamente deveria ser o suficiente para os mercados recuperarem consideravelmente dos mínimos (dado as quedas dos últimos dias não seria de excluir uma subida de 5-10%) e acalmarem por uns dias mas a reacção inicial dos mercados , embora positiva não está a ser tão entusiástica como se esperaria, talvez porque: i) a descida das taxas no Reino Unido e nos EUA já era antecipada e até, pelo menos no caso do Reino Unido, terá ficado abaixo das expectativas; ii) o ambiente psicológico é bastante negativo e os mercados podem interpretar esta acção como um sinal de desespero.