quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Buy the rumour, sell the news

É talvez uma das "regras" mais conhecidas no mercado de acções e explica parte do que se passou hoje. A verdade é que a bolsa tinha recuperado mais de 18% nas seis últimas sessões apesar de notícias francamente negativas, para o que terá contribuido a mensagem repetida quase até à exaustão nos canais de notícias finaceiras de que o fim da incerteza após a eleição seria positivo e de que de que os anos de eleição tendem a ser positivospara o mercado levando a um reforço de posições baseado nessa expectativa e, por outro lado, que os "bears" se mantivessem à margem do mercado. Passada eleição a não materialização dessas expectativas levou a uma natural pressão sobre as cotações eventualmente acentuada por mais algumas notícias negativas, nomeadamente a queda no indicador de actividade no sector dos serviços e indicações de degradação no mercado de trabalho que não augura nada de bom para os números do desemprego que serão divulgados na 6ª feira). Note-se, entretanto, que o volume foi relativamente fraco o que indicia que mais que pressão vendedora se registou uma ausência de compradores, o que pode (ou não) ser um sinal de que se os resultados não forem tão maus como o esperado não é de excluir que o mercado retome o seu movimento ascendente.

Entretanto na Europa o Eurostat anunciou uma queda das vendas a retalho no mês de Setembro e em Portugal foi divulgado que as vendas de automóveis ligeiros foi em Outubro inferior em 7,0% às registadas no mesmo mês de 2007.

Obama é o 44.º Presidente dos EUA

Barack Obama foi, como se esperava, eleito Presidente dos EUA com 338 votos eleitorais (contra 163 para McCain) e 52% do voto popular (47% para McCain), tornando-se o 44.º presidente dos EUA e o primeiro presidente afro-americano. O famoso efeito Bradley não terá sido significtaivo (embora pareça que os que se diziam indecisos acabaram por votar McCain).

Obama demonstrou ser um grande político de campanha. O seu discurso de ontem é excelente e a forma como o fez (mais) um exemplo das suas extraordinárias capacidades como orador e da sua capacidade para passar uma mensagem de união (devo também dizer que apesar dos seus dotes de orador não serem comparáveis também me impressionou o discurso de McCain sobretudo pela enorme sinceridade que transpareceu).

Obama enfrenta agora um novo teste, diferente e mais dificil: governar um país num cenário de crise financeira e económica, com um défice orçamental astronómico, um défice externo gigantesco (embora em queda) e dois conflitos militares. As capacidades que demonstrou possuir em campanha vão ser importantes, mas o cargo que vai ocupar exige também outras capacidades diferentes. Nomeadamente, a capacidade de se rodear de uma equipa competente, de lidar com o Congresso e o Senado (o que é sempre um exercício dificil mesmo com maioria democrata nessas duas câmaras) e sobretudo a capacidade de tomar decisões, o que significa tomar opções que, por natureza, tenderão a criar divisões e existem dois riscos: o de ficar abaixo das expectativas (talvez demasiado elevadas) criando um "efeito de ressaca" e o de não resistir à tentação de enveredar por uma política populista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Previsões de Outono da Comissão Europeia e ISM

As previsões de Outono da Comissão Europeia apontam para um crescimento do PIB na UE de 0,2% em 2009 (com o Reino Unido, Irlanda, Espanha, Letónia e Estónia a registarem quebras) e de 1,1% em 2010. Para Portugal as previsões também não são animadoras: cresicmento de 0,1% em 2009 e de apenas 0,7% em 2010 e um agravamento do défice orçamental para 2,8% em 2009 e 3,3% em 2010 (acima, portanto, dos 3%) e apenas uma melhoria marginal do défice da balança corrente (-10,6% em 2009 e -10,4% em 2010).

Relativamente aos EUA o cenário é ainda mais sombrio: contracção do PIB até meados de 2009 resultando numa queda média anual de 0,5% em 2009 e uma subida vertiginosa do défice orçamental para 7,2% em 2009 e 9,0% em 2010. Enquanto que as previsões para o Japão (que já estará em recessão técnica) apontam para uma redução do PIB de 0,4% em 2009.

Entretanto nos EUA o inquérito à indústria transformadora (ISM) registou o valor mais baixo desde Setembro de 1982 e as vendas de automóveis terão atingido o nível mais baixo desde Fevereiro de 1983 com as vendas da GM a cairem 45% face a Outubro de 2007 (a Chrysler e a Ford registaram quedas mais "modestas" de 35% e 30% respectivamente e nem as marcas japonesas escaparam a quedas superiores a 20%). Apesar destes dados (piores que o esperado) os índices americanos resistiram bastante bem com o S&P500 a cair apenas 0,25% numa sessão surpreendetemente calma (provavelmente à espera do resultado das eleições -a Bloomberg especula quanto à possibilidade de um plano de relançamento da economia à Franklin D. Roosevelt).

Para não ser tudo negativo quer as previsões da CE quer o ISM apontam para uma redução considerável das pressões inflaccionistas.

domingo, 2 de novembro de 2008

BPN nacionalizado

O Governo anunciou que vai propor à AR a nacionalização do BPN que terá acumulado prejuízos de 700 milhões de euros em operações clandestinas. Ao que parece o BPN vai ser integrado na CGD que provavelmente terá que proceder a um aumento de capital. Entretanto, parece que Jerónimo de Sousa terá considerado uma medida positiva por "reforçar o papel do Estado no sector financeiro" (?!!!) e que “é uma excelente oportunidade para apoiar as pequenas e médias empresas portuguesas" (????). Alguém será capaz de lhe explicar que o Estado está a "adquirir" um banco em situação de ruptura e que é provável que o impacto da operação no capital da CGD faça diminuir a capacidade da CGD (e portanto do sistema bancário nacional) para financiar a actividade económica ?

PS: Entretanto, o Estado propõe-se a financiar a injectar 4 mil milhões de euros no capital dos bancos (o que corresponde a cerca de 2,4% do PIB ou seja cerca de um ano de défice) - o PCP deve estar exultante. Das declarações (tal como citadas pelo Diário económico) ressalto duas notas: 1) a referencia à concorrência internacional - o que é um ponto válido e revela um dos efeitos perversos dos sucessivos planos de apoio que têm vindo a ser anunciados a nível internacional (num quase concurso para saber quem apoia mais); 2) a contradição entre as declarações do Ministro das Finanças que diz que a medida não tem que ver com debilidades ou insuficiência das instituições nacionais e do Governador do Banco de Portugal que refere que as práticas internacionais de mercado criaram um padrão de 7% para o rácio de fundos próprios de base e recorrendo às contas do 1º semestre de 2008 vemos que o BPI tem um rácio Tier I de 7,6% e o BCP de 7,5% mas o CGD tinha um rácio de apenas 6,0% e o BES de apenas 5,9%, portanto significativamente abaixo das "práticas internacionais de mercado".

Keynesianismo e grandes projectos de investimento

A actual conjuntura económica tem sido invocada pelo Governo para defender os grandes projectos de investimento, o que apareentemente até faz algum sentido. Num contexto em que a economia se contraí é, à partida, de esperar que os efeitos de crowding out (redução do investimento privado) via taxa de juro sejam menores - sobre o assunto ver a interessante discussão em Pedro Lains e no recente blogo da SEDES - e, portanto, o efeito líquido sobre o produto e o emprego maiores. Julgo no entanto que há que ter em atenção que:
1) A utilização do investimento público com efeitos expansionistas tem um grande obstáculo que resulta dos lags temporais entre a decisão de investir e as despesas de investimento. No caso concreto de Portugal os grandes projectos de investimento de que se fala tem períodos de execução muito alargados o que significa que grande parte da despesa não em 2009-201o mas após esse período ou seja, quando (espera-se) a economia já estará(ia) naturalmente em recuperação.
2) O efeito sobre o produto (e o emprego) depende em grande medida da despesa (e dos postos de trabalho directos) pelo que desse ponto de vista a construção, por exemplo, do TGV ou fazer e tapar buracos tem sensivelmente o mesmo efeito (na verdade como parte da despesa do TGV seria dirigida para importações fazer e tapar buracos teria provavelmente um efeito maior), mas naturalmente que os efeitos a médio longo prazo serão diferentes. Isto serve para dizer que mesmo numa conjuntura recessiva devem-se naturalmente privilegiar os projectos cuja rentabilidade económico-social seja superior, o que significa que a crise pode justificar que se antecipe o calendário de execução mas não justifica a dispensa de uma análise custo-benefício criteriosa.
3) A crise actual é, pelo menos na sua origem, uma crise financeira (não uma crise de sobreprodução) e Portugal está numa situação desvantajosa devido aos níveis de dívida pública e, sobretudo, de endividamento externo pelo que há que atender aos efeitos do esforço financeiro associado a esses (ou outros) projectos no custo de financiamento.

sábado, 1 de novembro de 2008

Indústria chinesa em queda?

A Bloomberg noticia hoje que a indústria transformadora chinesa está a desacelerar fortemente e pode estar já a contrair-se. A queda do consumo nos EUA e na Europa parece estar já a provocar uma forte redução da utilização da capacidade produtiva no leste asiático.

Recessão simultanea nos EUA, Europa e Japão ?

Os dados divulgados ontem revelam que o PIB dos EUA caiu 0,3% (valor anualizado) confirmando que a economia dos EUA estará já em recessão. O consumo privado caiu 3,1% e a FBCF 5,6% pelo que o resultado só não foi pior graças à balança externa (as exportações subiram 5,9% e as importações caíram 1,9%) e ao consumo público (+5,8%) impulsionado pelas despesas militares (que cresceram 7,5%).

Entretanto o indicador de sentimento económico na zona euro caiu em Outubro 7,1 pontos para 80,4 atingindo o nível mais baixo desde Novembro de 1993 (Em Portugal caiu 8,3 pontos para 79,0 situando-se em níveis próximos dos registados em 2003 ano em que o PIB caiu 0,8%), dando mais uma indicação de que podemos ter uma recessão simultânea nos EUA, na zona euro, no Reino Unido e provavelmente também no Japão.