Há algum exagero em considerar o que se está a passar nos mercados como constituindo "uma quinta-feira negra", mas existem motivos suficientes para olhar com preocupação a queda da bolsa de Lisboa e, sobretudo, para a evolução da dívida pública.
Para esta reacção estará certamente a contribuir as declarações feitas ontem pelo comissário Almunia em que afirmou que Espanha e Portugal partilham alguns dos problemas da Grécia, mas também com os riscos de instabilidade suscitados pelo "braço-de-ferro" entre o PS e a oposição relativamente à Lei das Finanças Regionais e as "notícias" que apontam para a possibilidade de demissão do Ministro das Finanças.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
As reacções ao novo estudo do TGV
Sinceramente não é o tipo de estudo cuja metodologia me convença particularmente, além de que se trata apenas de uma versão preliminar e cuja metodologia não tive tempo para analisar com atenção, mas, de qualquer modo, surpreendem-me as afirmações atribuidas ao Ministro Silva Pereira em que justifica a intenção do Governo em construir as linhas de alta velocidade Lisboa-Porto e Porto-Vigo porque "Não podemos confundir as lógicas de curto prazo com as lógicas estruturais. E o país está numa fase em que precisa de fazer escolhas estruturais”, quando uma das conclusões que se destaca do estudo é o relativamente fraco contributo para o crescimento, o forte impacto sobre o endividamento externo e, excepto no caso da linha Lisboa-Madrid um impacto apenas medíocre sobre a "competitividade".
sábado, 30 de janeiro de 2010
Também não é razão para tanto dramatismo
Se alguém agora acordasse de um coma de 2 ou 3 meses ficaria certamente perplexo a questionar-se sobre o que se teria passado neste nosso rectângulo.
Há poucos meses atrás parecia existir um consenso bastante generalizado quanto à necessidade do Estado intervir para apoiar a economia e a discussão essencial era quanto à melhor forma de concretizar esses apoios dividindo-se o país entre os que defendiam a redução dos impostos e aqueles que consideravam que a solução era o investimento público fosse sobre a forma de grandes projectos fosse na modalidade de investimentos de proximidade. E todos concordavam em apoiar as famílias, os desempregados e obviamente as micro-pequenas e médias empresas. Salvo algumas (honrosas) excepções então vilipendiadas por serem consideradas catastroficas, ninguém se preocupava com aspectos de somenos como o desequilibrio externo ou, muito menos o défice das contas públicas, que qualquer daquelas propostas só poderia contribuir para aumentar. Não me recordo que a notícia de que a Comissão Europeia havia previsto um défice da ordem dos 8% tenha causado qualquer arrefecimento no entusiasmo com que aquelas "alternativas" eram defendidas. Nem tal sucedeu quando, por alturas da apresentação do 2.º orçamento rectificativo, se trnou mais ou menos claro de que o défice iria muito provavelmente situar-se próximo dos 8,5%. Como também não causou particular preocupação alguns avisos do FMI e de agências de rating.
Eis senão quando passado pouco mais de um mês, a notícia de que o défice derrapado para os 9,3% provocou uma inusitada comoção no país, inclusive nos locais mais inesperados,gerando repentinamente um clamor pela defesa do rigor orçamental e da imperativo de contenção da despesa.
Saudo algumas dessas mudanças de opinião mas temo que mais uma vez se esteja a perder o sentido da realidade e das proporções. O problema orçamental português não é de hoje nem (por muito que custe ao PS) resultado exclusivo da crise internacional - e por isso não se resoverá apenas com a recuperação internacional - nem (por muito que custe à oposição) resultado das políticas erradas do actual Governos. Na sua forma e dimensão actual resultou de factores económicos complexos e de alguns excessos cometidos sobretudo na 2.ª metade da década de 90 que as políticas do Governo chefiado por Durão Barroso e pelo Governo anterior nos dois primeiros anos da sua legislatura, embora em ambos os casos geralmente num sentido bastante positivo, não foram suficientes para inverter fundamentalmente porque não foram prosseguidas de forma consistente durante o período de tempo necessário.
É indubitavelmente um problema sério que, infelizmente, exigirá politicas de austeridade mas está felizmente de ser uma situação irreparável. No estádio actual, se a conjuntura internacional não for particularmente adversa poderemos, com rigor e realismo, atingir valores que permitam a sustentabilidade da dívida pública sem que isso implique medidas draconianas.
É certo que alguma instabilidade nos mercados financeiros e efeitos de contágio vindos do Mediterrâneo não ajudam mas sejamos claros: o Euro não irá acabar. Na realidade é impossível de acabar pela simples razão de que não há forma realista de um país sair do Euro. A única excepção seria a Alemanha (que poderia abandonar o euro e eventualmente levar consigo um ou outro país como por exemplo os Países Baixos) mas mesmo esse cenário é, para dizer o mínimo, extremamente remoto pelos efeitos catastróficos que teria sobre o próprio sistema financeiro europeu alemão e pelas tremendas repercussões políticas que provocaria.
O que quer dizer que para o bem e para o mal o Euro veio para ficar. Tal não significa que um país não possa entrar em situação de incumprimento mas estou certo que em situações normais os parceiros europeus e o FMI interviriam e a única questão seria o preço dessa intervenção que, na prática, significaria colocar esse país numa situação de protectorado económico até que a situação se estabilizasse. O que seria duro e até humilhante, mas que estaria longe de constituir o fim da civilização ou a "morte" de Portugal.
No fundo a questão reside simplesmente em saber se vamos ser nós a, como está perfeitamente ao nosso alcance, pôr a nossa "casa" em ordem ou se vamos deixar-nos resvalar para uma situação em que outros tenham de vir mais tarde (e com mais custos) a impor-nos as medidas que então considerarem necessárias para equilibrar a situação.
Há poucos meses atrás parecia existir um consenso bastante generalizado quanto à necessidade do Estado intervir para apoiar a economia e a discussão essencial era quanto à melhor forma de concretizar esses apoios dividindo-se o país entre os que defendiam a redução dos impostos e aqueles que consideravam que a solução era o investimento público fosse sobre a forma de grandes projectos fosse na modalidade de investimentos de proximidade. E todos concordavam em apoiar as famílias, os desempregados e obviamente as micro-pequenas e médias empresas. Salvo algumas (honrosas) excepções então vilipendiadas por serem consideradas catastroficas, ninguém se preocupava com aspectos de somenos como o desequilibrio externo ou, muito menos o défice das contas públicas, que qualquer daquelas propostas só poderia contribuir para aumentar. Não me recordo que a notícia de que a Comissão Europeia havia previsto um défice da ordem dos 8% tenha causado qualquer arrefecimento no entusiasmo com que aquelas "alternativas" eram defendidas. Nem tal sucedeu quando, por alturas da apresentação do 2.º orçamento rectificativo, se trnou mais ou menos claro de que o défice iria muito provavelmente situar-se próximo dos 8,5%. Como também não causou particular preocupação alguns avisos do FMI e de agências de rating.
Eis senão quando passado pouco mais de um mês, a notícia de que o défice derrapado para os 9,3% provocou uma inusitada comoção no país, inclusive nos locais mais inesperados,gerando repentinamente um clamor pela defesa do rigor orçamental e da imperativo de contenção da despesa.
Saudo algumas dessas mudanças de opinião mas temo que mais uma vez se esteja a perder o sentido da realidade e das proporções. O problema orçamental português não é de hoje nem (por muito que custe ao PS) resultado exclusivo da crise internacional - e por isso não se resoverá apenas com a recuperação internacional - nem (por muito que custe à oposição) resultado das políticas erradas do actual Governos. Na sua forma e dimensão actual resultou de factores económicos complexos e de alguns excessos cometidos sobretudo na 2.ª metade da década de 90 que as políticas do Governo chefiado por Durão Barroso e pelo Governo anterior nos dois primeiros anos da sua legislatura, embora em ambos os casos geralmente num sentido bastante positivo, não foram suficientes para inverter fundamentalmente porque não foram prosseguidas de forma consistente durante o período de tempo necessário.
É indubitavelmente um problema sério que, infelizmente, exigirá politicas de austeridade mas está felizmente de ser uma situação irreparável. No estádio actual, se a conjuntura internacional não for particularmente adversa poderemos, com rigor e realismo, atingir valores que permitam a sustentabilidade da dívida pública sem que isso implique medidas draconianas.
É certo que alguma instabilidade nos mercados financeiros e efeitos de contágio vindos do Mediterrâneo não ajudam mas sejamos claros: o Euro não irá acabar. Na realidade é impossível de acabar pela simples razão de que não há forma realista de um país sair do Euro. A única excepção seria a Alemanha (que poderia abandonar o euro e eventualmente levar consigo um ou outro país como por exemplo os Países Baixos) mas mesmo esse cenário é, para dizer o mínimo, extremamente remoto pelos efeitos catastróficos que teria sobre o próprio sistema financeiro europeu alemão e pelas tremendas repercussões políticas que provocaria.
O que quer dizer que para o bem e para o mal o Euro veio para ficar. Tal não significa que um país não possa entrar em situação de incumprimento mas estou certo que em situações normais os parceiros europeus e o FMI interviriam e a única questão seria o preço dessa intervenção que, na prática, significaria colocar esse país numa situação de protectorado económico até que a situação se estabilizasse. O que seria duro e até humilhante, mas que estaria longe de constituir o fim da civilização ou a "morte" de Portugal.
No fundo a questão reside simplesmente em saber se vamos ser nós a, como está perfeitamente ao nosso alcance, pôr a nossa "casa" em ordem ou se vamos deixar-nos resvalar para uma situação em que outros tenham de vir mais tarde (e com mais custos) a impor-nos as medidas que então considerarem necessárias para equilibrar a situação.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Dados do PIB nos EUA
Foi hoje divulgada a primeira estimativa do PIB dos EUA no 4.º trimestre de 2009 que aponta para uma taxa de crescimento (anualizada) de 5,7%. Este crescimento surge particularmente associado ao abrandamento do ritmo de contracção dos "stocks" que, em preços constantes, registaram uma queda de “somente” 33,5 milhões de USD contra 139,2 milhões de USD no trimestre anterior (variação que corresponde a cerca de três quintos do crescimento do PIB verificado), enquanto que o consumo privado cresceu cerca de 2,0% e o investimento fixo 3,5%. De salientar, ainda, a recuperação do comércio externo com um crescimento (também em preços constantes) das exportações de 18,1% e das importações de 10,5%.
Indicador de Sentimento Económico
O indicador de sentimento económico voltou a subir, pelo décimo mês consecutivo, na União Europeia (+2,1 pontos para 97,1 pontos) aproximando-se da sua média de longo prazo, impulsionado pela evolução positiva na indústria (+ 3 pontos), comércio a retalho (+ 3 pontos) e na confiança dos consumidores (+1 ponto), enquanto que o sentimento se manteve estabilizado nos serviços e caiu ligeiramente no sector da construção (-1 ponto).
Por países cabe destacar que o sentimento económico melhorou em todos os grandes países da zona euro: Itália + 4,2 pontos, Reino Unido + 3,2 pontos, França + 0,6 pontos e Espanha + 0,3 pontos e que registou, igualmente um crescimento forte em Portugal (+ 5,7 pontos para 92,6 pontos) fruto de uma evolução francamente positiva na industria, comércio, serviços e consumidores e não obstante o ligeiro decréscimo da confiança na construção em linha com o verificado na União Europeia.
Por países cabe destacar que o sentimento económico melhorou em todos os grandes países da zona euro: Itália + 4,2 pontos, Reino Unido + 3,2 pontos, França + 0,6 pontos e Espanha + 0,3 pontos e que registou, igualmente um crescimento forte em Portugal (+ 5,7 pontos para 92,6 pontos) fruto de uma evolução francamente positiva na industria, comércio, serviços e consumidores e não obstante o ligeiro decréscimo da confiança na construção em linha com o verificado na União Europeia.
O aumento dos CDS da dívida portuguesa
Infelizmente as referências Portugal na imprensa económica internacional por reputados economistas continuam a multiplicar-se. Desta vez foi Daniel Gros no Financial Times que afirma:
"In determining the sustainability of public debt one should not look only, perhaps not even mainly, at today’s fiscal accounts but at the resource balance for the entire country. On this account, clear differences emerge. The Pigs consist of two quite different groups, with Greece and Portugal in the weakest position because of their lack of domestic savings."
Estas chamadas de atenção que surgem no contexto da notícia de um aumento considerável do défice estão a ter reflexos importantes sobre o preço do risco da nossa dívida pública nos mercados que reduz ainda mais a escassa margem de manobra que dispunhamos para concretizar um ajustamento inevitável. Perante esta situação os mercados estão cada vez mais a olhar já não para a Grécia ou Portugal, mas sim para sinais da Alemanha para saber se esta estará (ou não) disponível para "socorrer" estes países.
"In determining the sustainability of public debt one should not look only, perhaps not even mainly, at today’s fiscal accounts but at the resource balance for the entire country. On this account, clear differences emerge. The Pigs consist of two quite different groups, with Greece and Portugal in the weakest position because of their lack of domestic savings."
Estas chamadas de atenção que surgem no contexto da notícia de um aumento considerável do défice estão a ter reflexos importantes sobre o preço do risco da nossa dívida pública nos mercados que reduz ainda mais a escassa margem de manobra que dispunhamos para concretizar um ajustamento inevitável. Perante esta situação os mercados estão cada vez mais a olhar já não para a Grécia ou Portugal, mas sim para sinais da Alemanha para saber se esta estará (ou não) disponível para "socorrer" estes países.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
A dimensão do problema orçamental português
O défice global das administrações públicas em 2009 excedeu em quase 10,5 mil milhões de euros o limiar de 3% fixado nas regras do Pacto de Estabilidade. O que significa que mesmo considerando um crescimento do PIB nominal relativamente generoso de 4% o esforço de ajustamento orçamental a realizar em 2010-2013 corresponderá a cerca de 9,7 mil milhões de euros, o qual terá que ser realizado num cenário em que será expectável um aumento das taxas de juro que tenderá a agravar o aumento dos encargos da dívida pública e um aumento anunciado dos encargos com as parcerias público privadas e concessões (que de acordo com o relatório do OE aumentarão “apenas” cerca de 240 milhões de euros até 2013 mas registarão um forte crescimento nos anos de 2014 - em que se prevê um aumento de 723 milhões face a 2013 - e 2015 – para o qual se prevê novo aumento de mais 85 milhões de euros).
Para ter ideia do esforço do ajustamento refira-se que, no cenário de crescimento anual de 4% do PIB nominal, mesmo considerando um congelamento da despesa primária (nominal) - durante os 4 anos !!! - e uma manutenção da taxa de juro da dívida pública, para atingir o objectivo de 3% em 2013 seria necessário um aumento do peso da receita total no PIB dos 40,2% projectados pelo Governo para 2010 para, pelo menos, cerca de 41% em 2013.
Para ter ideia do esforço do ajustamento refira-se que, no cenário de crescimento anual de 4% do PIB nominal, mesmo considerando um congelamento da despesa primária (nominal) - durante os 4 anos !!! - e uma manutenção da taxa de juro da dívida pública, para atingir o objectivo de 3% em 2013 seria necessário um aumento do peso da receita total no PIB dos 40,2% projectados pelo Governo para 2010 para, pelo menos, cerca de 41% em 2013.
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