domingo, 28 de fevereiro de 2010

O objectivo de taxa de inflação do BCE

Num paper, Olivier Blanchard, Giovanni Dell’Ariccia, and Paolo Mauro  colocam a seguinte questão:

"To be concrete, are the net costs of inflation much higher at, say, 4 percent than at 2 percent, the current target range? Is it more difficult to anchor expectations at 4 percent than at 2 percent?"
considerando os autores que, embora esse aumento pudesse aumentar os efeitos distorcivos associados à inflação, estes poderiam ser compensados pelo aumento do espaço de manobra da política monetária que resulta de não ser possível (ou pelo menos dificil) fixar taxas de juro negativas.

Pessoalmente, penso que a questão do espaço de manobra da política monetária não me parece por si só um argumento particularmente convincente. Efectivamente, como a actual crise demonstrou os bancos centrais tem outros instrumentos para aumentar a liquidez no sistema financeiro nomeadamente através de políticas monetárias quantitativas.

Por outro lado, aumentar o objectivo de inflação em 2 pontos percentuais pode ter o efeito perigoso de criar um precedente que reduza a credibilidade do novo objectivo, na medida em que os agentes tenderão a pensar que se o objectivo aumentou uma vez poderá aumentar (ainda mais) outras vezes. Recorde-se, além disso, que a fixação do valor em 2% foi fixado tendo em conta a possibilidade de enviesamento da taxa de inflação (resultante da forma como o índice é calculado) e criar uma margem que contivesse os riscos de deflação.

Mas, existe um outro argumento que, este sim, me parece bastante importante.

Num contexto de rigidez de preços, a fixação de um objectivo de inflação superior pode facilitar o ajustamento dos preços relativos, nomeadamente, dos salários entre os vários países.

O que poderia ser particularmente importante no caso da zona euro na medida em permitiria um ajustamento mais rápido dos custos unitários de produção sem a necessidade de uma (tão grande ?) descida dos salários nominais. Com efeito, existindo relutância em reduzir os salários nominais, o custo tenderá a ser um aumento (superior) do desemprego, o que significa que, nomedamente no contexto da actual zona euro, talvez exista, mesmo no longo prazo, uma relação inversa entre taxa de desemprego e inflação (pelo menos para níveis de inflação moderados).

Claro que além do problema de credibilidade que acima referi, existe o problema de uma compreensível relutância da Alemanha para quem a inflação e defesa de uma moeda forte são  compreensivelmente preocupações importantes. Talvez fosse no entanto possível fazer uma pequena alteração, mas que poderia ter um impacto significativo, no objectivo de política monetária do BCE que actualmente é "a manutenção, a médio prazo, da taxa de inflação num nível inferior mas próximo de 2%". Este objectivo poderia passar a ser simplesmente "a manutenção, a médio prazo, da taxa de inflação próximo de 2%", o que permitiria ao BCE uma maior margem para deixar a taxa de inflação aumentar quando essa subida contribuisse para a correcção de desequilíbrios entre países da zona euro, sem que me pareça que daí pudesse resultar danos significativos em termos de credibilidade da política monetária do BCE.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Notícias da Grécia nada animadoras

O Wall Street Journal publica que os enviados da União Europeia à Grécia consideram que as medidas planeadas apenas conduzem a uma redução do défice de cerca de 2 pontos percentuais e estão a pressionar no sentido de um pacote adicionla de 4 mil milhões de euros.

E já hoje tinha sido noticiado no Spiegel que os alguns grandes bancos alemães não estavam interessados em adquirir mais títulos do Estado grego, numa altura em que se sucedem os avisos de  downgrade do rating da Grécia e em que segundo o que tem sido noticiado na imprensa económica o Estado grego necessitará de refinanciar cerca de 20 a 25 mil milhões de euros nos próximos 2 meses.

Entretanto foi noticiado que a chanceler alemã Angela Merkel convidou o primeiro-ministro grego para uma visita a Berlim na próxima semana.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Indicador de Sentimento Económico na União Europeia

Segundo os valores hoje divulgados pela Comissão Europeia o indicador de sentimento económico em Fevereiro terá subido subiu 0,2 pontos (para 97,4) no conjunto da União Europeia e descido 0,1 pontos (para 95,9) na Zona Euro.

Por países destacam-se as evoluções positivas verificadas na Polónia (+4,2), Espanha (+1,1), Alemanha e Países Baixos (+0,9) e Reino Unido (+0,1) e as quedas verificadas na França (-1,9) e Itália (-1,7) - países que tinham registado evoluções muito positivas no mês anterior -, sendo ainda de assinalar a queda de 3,7 pontos (para 72,4 pontos o valor mais baixo da União Europeia) registada na Grécia.

Enquanto que por sectores registou-se uma evolução globalmente positiva da confiança no sector dos serviços, enquanto que a confiança dos consumidores e no comércio a retalho registou um ligeiro declínio. Na indústria e na construção os níveis de confiança mantiveram-se quase inalterados.

Em Portugal o indicador de sentimento económico caiu 1,6 pontos (para 91,0), tendo a confiança descido em todos os sectores com excepção do sector dos serviços (onde subiu 1 ponto). Esta queda foi mais pronunciada nos consumidores (-4 pontos) e na construção (- 3 pontos), sendo de “somente” 1 ponto no comércio a retalho e na indústria.

Entretanto, nas suas previsões intermédias agora divulgadas a Comissão Europeia manteve praticamente inalteradas as previsões feitas no Outono que apontam para um crescimento na União Europeia de 0,7% em 2010, confirmando as perspectivas de uma recuperação, embora frágil, da actividade económica ao longo do presente ano.

Dados económicos nos EUA

Os últimos sinais económicos dos EUA têm sido mistos.

Os dados da indústria têm sido positivos: os valores da produção industrial divulgados na semana anterior apontam para um crescimento anualizado da produção na indústria transformadora nos três meses terminados em Janeiro de cerca de 5,7% e os dados da evolução das encomendas de bens duradouros foram também bastante animadores apontando no mesmo período para um crescimento de dois dígitos (12,7%).

Pelo contrário no sector da construção os sinais dos últimos dois meses foram algo decepcionantes e indicam que as vendas de casas novas terão atingido em Janeiro o valor mais baixo desde, pelo menos, 1963. Enquanto que o índice Case-Shiller registou em Dezembro (-0,24%) pelo 3.º mês consecutivo, importando no entanto ressalvar que se tratam de quedas ligeiras se comparadas com as verificadas em 2008 e na primeira metade de 2009.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A diferença entre sucesso e falhanço

Martin Wolf não é conhecido pelo seu optimismo mas a sua coluna no FT de hoje é particularmente negra: 
"So what happens next? We can identify two alternatives: sucess and failure.
By «success» I mean reignition of the credit engine in high income deficit countries. So private sector spending surges anew, fiscal deficits shrinks and economy appears to be going back to normal, at last. By «faillure» I mean that deleveraging continues, private spending falls to pick up with any real vigour and fiscal deficits remain far bigger, for far longer, than almost anybody now dares to imagine"
Mas se acham o falhanço assutador esperem até conhecerem quais serão segundo Martin Wolf as consequências do "sucesso":
"Unhappily the result of what I call success would probably be a still bigger financial crisis in the future"
Concluindo que:
"Either outcome ultimately leads us to a sovereign debt crisis. This in turn, would surely result in defaults, probably via inflation. In essence, stretched balance sheets threaten mass private sector bankruptcy and a depression, or sovereign bankruptcy and inflation or some combination of the two"
A vantagem de ter alguém conceituado a escrever assim é que posso fazer figura de optimista. Na verdade tenho bastante consideração por Martin Wolf que foi um dos (poucos) que há vários anos têm sistematicamente chamado a atenção para os desequilíbrios da economia internacional e concordo no essencial não apenas com o seu diagnóstico da actual situação como com a posição que sistematicamente vem defendendo de ser necessario um aumento da procura interna nos países superavitários (basicamente, Alemanha e países asiáticos).

O meu optimismo de hoje resulta fundamentalmente do gráfico que ele apresenta com a evolução da capacidade de financiamento do sector privado nos vários países da OCDE que apontam para um aumento substancial da capacidade de financiamento do sector privado nos países da OCDE.
Martin Wolf considera e correctamente que este aumento da capacidade de financiamento do sector privado pode representar uma ameaça de depressão.

Talvez dominado por esse facto, não reparou no facto de que, tal como necessário para o ajustamento que preconiza, esse aumento foi especialmente pronunciado nos precisamente países (nomeadamente Espanha, Irlanda, N. Zelândia, Reino Unido e Grécia com défices externos - a excepções são a Dinamarca e Noruega onde a capacidade de financiamento privado aumentou substancialmente apesar de serem países com superávites externos muito substanciais o que poderá eventualmente estar relacionado com a evolução do preço do petróleo) enquanto que os países da OCDE  onde a poupança privada menos aumento foram aqueles com posições externas favoráveis (Japão, Austria, Suíça, Canadá e Alemanha). O que significa que a evolução é compatível com o facto desse ajustamento inevitável estar já a decorrer.

Curiosamente, Portugal é um dos (poucos) países que destoa, pois apesar de ser um dos países onde o défice externo é reconhecidamente mais elevado encontra-se no grupo dos países onde o aumento da capacidade de financiamento do sector privado foi menos pronunciado.

Um novo site sobre economia portuguesa

Em língua inglesa e com uma lista de contribuidores que vale a pena seguir aqui.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sobre a entrevista do primeiro-ministro

Da entrevista do primeiro-ministro ressalta a desvalorização da gravidade da situação económica e financeira portuguesa e a insistência na defesa do investimento público "modernizador" como resposta à crise e ao desemprego, invocando Krugman, do qual citou um post de Julho de 2009 intitulado (Deficits saved the world), mas cujos posts mais recentes e bastante pessimistas como por exemplo esta sua coluna de 14 de Fevereiro que na altura tivemos oportunidade de comentar.

Fiquei contudo perplexo por o primeiro-ministro ter afirmado a propósito do aumento do défice que o Estado "investiu em particular em barragens" invocando os investimentos no plano nacional de barragens. É que, como facilmente se pode concluir dos números oficiais apresentados aqui, não só os investimentos previstos no Programa Nacional de Barragens (mais de 2.165 milhões de euros) serão suportados pelas entidades concessiónárias e a concessão de 8 das 10 barragens incluídas nesse Plano permitem ao Estado arrecadar receitas que ascendem a quase 624 milhões de euros, tendo, portanto, um efeito positivo sobre as contas públicas.

Quanto à forma como o Governo pretende controlar o défice público até 2013 não houve novidades, tendo o primeiro-ministro remetido para a apresentação e discussão do Programa de Estabilidade e Crescimento.