domingo, 20 de junho de 2010

Tempos incertos

De  Espanha continuam a chegar notícias preocupantes, nomeadamente quanto à solidez financeira do seu sistema bancário (especialmente das caixas) e à subida dos custos de emissão da dívida pública. Contribuindo para um sentimento de que a Espanha poderá ser mesmo "forçada" a  recorrer à ajuda dos FMI e dos seus parceiros da zona euro e obrigou a (mais uma) ronda de esforços quer do FMI quer da União Europeia para "acalmar" os mercados.

Sem querer parecer catastrofista, parece-me, contudo, que estes esforços poderão, quanto muito, permitir ganhar algumas semanas.

No caso da visita do director-geral do FMI não é crível que se tenha deslocado a Madrid apenas para "credibilizar o plano de saída da crise", parecendo-me bastante provável que a viagem terá servido pelo mesmo para que o FMI possa ter uma percepção mais exacta da rela situação do sistema financeiro da Espanha e construir contactos que permitam uma acção mais rápida em caso de materialização dos receios de necessidade de intervenção. O que diga-se é, aliás, positivo. Pena foi que o director-geral do FMI não tenha sabido resistir a comparar a situação de Espanha com a portuguesa, alertando para os nossos excessivos níveis de endividamento. O que sendo um facto não deixa de ser contraproducente, não apenas para Portugal mas também para a própria situação de Espanha na medida em que os bancos espanhois são precisamente os mais expostos em Portugal com posições face a residentes portugueses superiores a 100 mil milhões de euros (ver este blog).

No plano da União Europeia tivemos mais uma reunião em que fundamentalmente tivemos mais um voto de fé relativamente a um reforço da coordenação / vigilância da situação das finanças públicas e da evolução macroeconómica e da supervisão financeira. Medidas cujos efeitos tem, no entanto, mais a ver com o evitar de próximas crises do que resolver aquela que actualmente atravessamos. No que se refere ao curto prazo, assistimos sobretudo a um compromisso de aceleração dos esforços de consolidação orçamental, se necessário e de divulgação dos "stress tests" ao sistema bancário que deverá ocorrer o mais tardar na segunda metade de Julho. Relativamente a este ponto, importa recordar que, em 2009, os EUA impementaram uma medida similar que teve bastante sucesso. Mas que para esse sucesso foi decisivo, por um lado, a transparência (e credibilidade) das hipóteses assumidas no exercício e, sobretudo, que a maioria dos bancos identificados como tendo capitais próprios insuficientes tenham imediatamente anunciado planos detalhados sobre a forma como iriam obter os capitais adicionais necessários. A decisão de divulgação destes testes, além de colocar os mercados numa posição de expectiva durante um longo mês, coloca um dilema. Se, por um lado, uma conclusão de que todos os bancos são sólidos não será credível, por outro lado, a identificação de (alguns) bancos em situação de carência de capital exigirá a imediata divulgação de medidas que resolvam a situação desses bancos, se necessário com recurso a fundos públicos criando dificulades políticas e financeiras aos Estados-membros desses bancos.
Ainda quanto ao Conselho Europeu, outra "novidade" foi a do acordo para criação de uma taxa sobre o sistema financeiro. O que leio no comunicado do Conselho fica, no entanto, muito aquém de uma decisão definitiva, pois aqui diz-se que "Such levies or taxes should be part of a credible resolution framework. Further work is urgently required on their main features and issues of level playing field and cumulative impacts of various regulatory measures should be carefully assessed. The European Council invites the Council and the Commission to take this work forward and report back in October 2010". Ou seja, nesta matéria da criação de uma  taxa sobre o sistema financeiro temos, quanto muito, um acordo de princípio, mas como se costuma dizer "o diabo está nos detalhes".

sábado, 5 de junho de 2010

Ponto da situação

Os dados económicos mais recentes têm aspectos positivos e aspectos negativos.

Começando pelos positivos os indicadores de actividade industrial continuam quer na Europa quer nos EUA a revelar uma evolução positiva quer dos níveis de produção quer das novas encomendas recuperando dos níveis bastante deprimidos verificados no ano anterior. Esta evolução beneficia bastante de um efeito de base - por exemplo nos EUA, Março apesar de uma subida homóloga da produção de 6,5% da industria transfromadora o nível de produção situava-se ainda cerca de 11% abaixo do s valores de finanis de 2007 - mas não deixa apesar disso de ser assinalável e tem permitido alguma recuperação do mercado de trabalho, nomeadamente nos EUA onde este sector terá sido responsável pela criação/recuperação de cerca de 29 mil postos de trabalho.

Passando às más notícias, a verdade é que esta recuperação parece estar a perder algum do impeto que vinha revelando nos meses anteriores. Efectivamente os indicadores de confiança para o mês de Maio revelam alguma estagnação ou até um ligeiro decréscimo do ritmo dessa recuperação (quer o ISM nos EUA quer os indicadores de sentimento económico para a União Europeia e a zona euro registaram pequenas descidas) o que parece estar associado ao esgotamento do efeito de ajustamento dos stocks (os dados das contas nacionais apontam para que nos EUA esse efeito - que tem sido importante - tenha sido já menor no primeiro trimestre). O que não sendo de todo surpreendente - é um fenónmeno normal a seguir a uma situação de recessão - suscita algumas preocupações pelo facto de com os níveis de endividamento já bastante elevados das famílias e empresas continuação da instabilidade nos mercados financeiros não se antever a recuperação do consumo de bens duradouros ou do investimento que permitisse dar impulso à recuperação.

Neste quadro, o cenário mais provável seria o de um crescimento económico fraco durante os próximos trimestres, infelizmente, insuficiente para reduzir, pelo menos de forma significativa, os elevados níveis de desemprego que resultaram da recessão (como apontam os dados de ontem sobre a evolução do emprego nos EUA que revelam um crescimento do emprego não apenas débil mas, inclusivamente em desaceleração). Existindo um risco muito considerável de recáida numa situação de recessão resultante do efeito das medidas de restrição orçamental que tem vindo a ser anunciadas um pouco por toda a Europa. Estou portanto de acordo com as declarações de Paul DeGrauwe no sentido de que na actual conjuntura não fará sentido a adoipção generalizada de medidas restritivas nos países da UE. Embora não partilhe da visão maniqueista - hoje aparentemente em voga - das responsabilidades da Alemanha, a verdade é que o que seria correcto é que os países (como a Alemanha) com excedentes externos e em melhor situação orçamental, em vez de "dar o exemplo", se abstivessem por agora de efectuar cortes orçamentais discricionários de forma a de algum modo compensar os efeitos restritivos dos ajustamentos orçamentais que são absolutamente indispensáveis em países como Portugal, Grécia ou Espanha, facilitando os ajustamentos estruturais destas economias e da União no seu conjunto, sob pena de, como refere De Grauwe, os problemas se poderem vir a agravar ainda mais.

Confundir "coordenação económica" com "uniformzação de políticas" apenas dificultará a resolução dos actuais desequilíbrios.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Preocupação

Obrigações profiussionais obrigaram-me a estar fora do país nas últimas duas semanas. Se por um lado estive menos atento às notícias (particularmente nacionais), por outro tive algum tempo para reflectir um pouco sobre a evolução da economia.

Parafraseando Mark Twain penso que as notícias da morte do euro tem sido MUITO exageradas, mas estou (ainda) mais pessimista em relação à evolução da economia  mundial no futuro próximo. Não tanto pela depreciação do euro (que até pode ser positiva), nem sequer pela queda das bolsas (uma correcção até pode ser saudável), mas porque além da evidente crise de confiança nas dívidas públicas de alguns países e a inevitabilidade da "consolidação" orçamental nas principais economias mundias (EUA, Reino Unido, Zona euro e Japão) existem alguns sinais preocupantes vindos da Ásia (onde parecem existir sinais claros de que a evolução do sector imobiliário na China é insustentável e a inflação na India continua a preocupar) e, sobretudo, por causa dos sinais muito claros de que a alavancagem (leia-se niveis de endividamento) é ainda demasiado elevada e que o processo de desalavancagem terá de continuar por mais algum (bastante?) tempo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Argentina

A surpreendente admiração de alguns pelo "modelo" argentino - que levou a uma queda do PIB de 11%, inflacao de 41%, desemprego de quase 30%  - levou-me a recuperar este artigo de Stiglitz de Maio de 2002 em que analisa as causas da crise Argentina (para outra visão recomendo este artigo de Domingo Cavallo que foi o ideólogo do plano de convertibilidade do peso face ao dolar).

Neste artigo Stiglitz argumenta que a convertibilidade do peso face ao dolar estava destinada a falhar referindo que: "Fixed exchange rates have never worked. Even the United States couldnt live with a fixed exchange rate, going off the peg to gold in the midst of the Great Depression". Pode-se dizer que dada as interligações aue resultam do funcionamento do mercado interno a situacao de Portugal (bem como a da Grecia e Espanha) é substancialmente diferente da situacao da Argentina, mas a verdade é que os desequilibrios externos apontam para a existencia de problemas que são fundamentalmente similares.

Um segredo de Polichinelo

As declarações do presidente do FMIBPI mais não fizeram do que dizer em voz alta e publicamente aquilo que os mercados já há bastante tempo têm vindo a "dizer", pelo que não só me parece sinceramente ridícula a reacção de varios banqueiros, como pelo contrario me parece util e mesmo indispensável que o público em geral seja informado da gravidade de uma situação, em que a necessidade de recurso ao novo fundo europeu e ao FMI parece cada vez mais provável.

sábado, 15 de maio de 2010

O pacote de austeridade

Aumento de 1 ponto percentual em todas as taxas do IVA, adicionais no IRS e IRC e corte nas despesas.

É este no essencial o pacote que o Governo, caucionado pelo PSD, aprovou com o objectivo de reduzir o défice para 7,3% em 2010 e 4,6% em 2011. O que se se vier a concretizar significa uma redução do défice de quase 5 pontos percentuais em dois anos constituindo um ajustamento orçamental bastante forte, particularmente se como se teme o crescimento do produto for fraco.

Mas significa também que o ajustamento terá ainda de continuar nos anos seguintes, pelo que é de esperar que estas medidas (ou eventualmente outras que as venham substituir) se venham, pelo menos, a manter durante vários anos.

Neste sentido, pode-se, por exemplo, discutir os escalões dos impostos e a decisão de aumentar o IVA em todas as taxas em vez de, eventualmente, ter subido mais fortemente a taxa normal. Sobretudo porque constituem factores que tendem a atenuar a progressividade do sistema fiscal.

Parece-me, no entanto, positivo que as medidas repartam o esforço por vários impostos e ao longo dos vários meses do ano, o que me parece que, por um lado, poderá ajudar a suavizar o seu efeito recessivo sobre a procura interna e, por outro lado, facilitará a manutenção das medidas por um período mais prolongado.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Artigo de Krugman

A primeira reacção dos mercados foi bastante positiva. Pessoalmente, tendo a concordar com Krugman quer quando diz que só por si este plano não resolve o problema económico fundamental e quando refere que o facto mais relevante do plano será a actuação do BCE no mercado da dívida.

Julgo contudo que Krugman não valoriza suficentemente dois aspectos que me parecem fundamentais. Em primeiro lugar, o plano embora fruto de algum sentimento de desespero demonstra uma determinação e uma capacidade política que constitui em si mesmo um facto relevante. E em segundo lugar, face à evolução das últimas semanas era fundamental fazer algo para ganhar tempo, resta ver como esta margem de manobra será utilizada.