sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Vamos ser racionais ?

É o título, com ponto de interrogação e tudo, de uma série de 3 posts de Vitor Bento publicados no blog da SEDES (primeiro, segundo e terceiro) onde procura desmistificar o "papão" do FMI.

Parece-me, apenas, que omite um argumento contra a intervenção do FMI que é o facto de essa intervenção poder implicar um estigma com efeitos sobre a credibilidade do país perante os credores que poderá eventualmente perdurar por vários anos ou décadas. Dito isto, infelzimente, correndo o risco de ser acusado de falta de patriotismo e esperando que os acontecimentos revelem que estou errado julgo que tem razão num ponto essencial: o de que na actual situação será inevitável o recurso a alguma forma de auxilio externo (que aliás já está a ocorrer via intervenção do BCE no mercado secundário) e que não reconhecer essa realidade poderá contribuir para agravar o problema.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O comunicado do BCE

O BCE decidiu manter as suas taxas de juro e manteve a sua posição relativamente às medidas excepcionais:

"The stance, the provision of liquidity and the allotment modes will be adjusted as appropriate, taking into account the fact that all the non-standard measures taken during the period of acute financial market tensions are, by construction, temporary in nature. Accordingly, the Governing Council will continue to monitor all developments over the period ahead very closely."

Registe-se, no entanto, a alteração significativa do comunicado na parte em que se refere à inflação, relativamente à qual ressalta a passagem:

"Overall, we see evidence of short-term upward pressure on overall inflation, stemming largely from global commodity prices. While this has not so far affected our assessment that price developments will remain in line with price stability over the policy-relevant horizon, very close monitoring of price developments is warranted." (meu sublinhado)

E, igualmente, o facto de onde no comunicado de enquanto no comunicado de 2 de Dezembro, o BCE referia:

"Risks to the outlook for price developments are broadly balanced."

No de hoje refere-se o seguinte:

"Risks to the medium-term outlook for price developments are still broadly balanced but could move to the upside." (meu sublinhado)

O que denota claramente uma maior preocupação do BCE com a evolução dos preços na zona euro e, em particular, com os efeitos que as recentes subidas dos prços dos produtos energéticos e alimentares poderão ter sobre a evolução do nível de inflação no médio prazo.

Poupança das famílias em Portugal

No último Boletim de Inverno do Banco de Portugal foi publicado um artigo muito interessante sobre a poupança das famílias em Portugal, o qual além de uma discussão bastante interessante sobre os principais factores explicativos da taxa de poupança contem um conjunto muito relevante de informação sobre a poupança das famílias portuguesas.

Um aspecto que me surpreendeu pela dimensão do fenómeno é a elevada desigualdade da distribuição da poupança. De acordo com os dados constantes do artigo e que resultam do Inquérito às Despesas das Famílias (IDEF), 10% das famílias são responsáveis por cerca de 2 terços do total das poupanças e 20% das famílias geram mais de 90% do total da poupança das famílias. Enquanto que por decis de rendimento verificamos que mais de 50% da poupança é gerada pelos 10% de famílias mais ricas (que têm uma taxa média de poupança próxima dos 40%) e que os três decis de rendimento mais elevados geram cerca de 80% da poupança total, enquanto que a taxa média de poupança dos 4 primeiros decis de rendimento é muito baixa. E a taxa média de poupança nos três primeiros decis de poupança é mesmo negativa.

Neste contexto a "folga" financeira de uma percentagem significativa das famílias será muito reduzida e portanto a redução do rendimento disponível (via redução de rendimento bruto e aumento de impostos) deverá ter um impacto bastante significativo sobre as desepsas de consumo.

Deve, no entanto, notar-se que os dados possam estar afectados por erros de medida na medida em que como os autores referem tipicamente tanto o rendimento como as despesas de consumo tendem a ser sub-reportadas. Por outro lado, o IDEF não considera os encargos com juros pagos pelas famílias.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

É possível salvar a Europa ?

... é o título do mais recente artigo de Krugman  (que, num post, classificou o "sucesso" do leilão de hoje como uma vitória de pírrica) sobre a actual situação da Europa, no qual elenca o que considera serem os quatro cenários possíveis para a Europa: i) resistir suportando os (pesados) sacrifícios económicos e sociais mas evitando a reestruturação e a desvalorização; ii) reestruturação da dívida; iii) cenário Argentino, ou seja reestruturação e saída do euro; e iv) união orçamental.

Claro que os cenários ii) e iii) implicam igualmente pesados custos económicos e socias, eventualmente até superiores ao cenário i). E o futuro vai depender sobretudo de factores políticos. Contudo, pessoalmente, continuo a pensar que o cenário mais provável será uma combinação entre i) e iv), eventualmente com alguma forma mitigada de "eurobonds" e/ou o "aprofundamento" do papel do BCE a compensar parcialmente a ausência de uma política orçamental "federal".

Leilão de dívida pública

Nas dificeis circunstâncias em que ocorreu, o resultado do leilão de OT's hoje realizado constitui senão um bom resultado pelo menos um alívio na medida em que permite ao Governo alguma folga necessária para no imediato defender a sua posição de recusa de recurso ao FMI / FEEF.

Não obstante deve salientar-se que os resultados do leilão não se nos afiguram tão inequivocamente positivos como a (pequena) redução de 6,806% para 6,716% da taxa média ponderada das OT's Jun 2020 face aos resultados doleilão ocorrido em 10 de Novembro poderá levar a crer. É que além de se tratar de uma taxa demasiado alta (e desconfortavelmente próxima do mítico limiar dos 7%) e significativamente superior à registada em emissões anteriores a estas (no leilão de 22 de Setembro a taxa média havia sido 6,242%)  deve assinalar-se que o montante hoje colocado (599 milhões de euros) foi inferior ao colocado em Novembro (686 milhões). Mas, mais importante, é o facto da taxa média da colocação das OT's Out 2014 de 5,396%  não só se ter situado claramente acima dos 5% como registar uma subida muito substancial face aos 4,041% obtidos no leilão de 27 de Outubro, o que objectivamente constitui um mau resultado.

Neste contexto, é expectável que as pressões para que Portugal aceda a recorrer à ajuda do FMI/FEEF não só continuem como, até, se intensifiquem. Os resultados hoje obtidos poderão, no entanto, permitir a Portugal uma maior margem negocial quanto aos termos e condições desse auxílio.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Projecções do Banco de Portugal para a economia portuguesa

O Banco de Portugal divulgou hoje as suas projecções de Inverno para 2011 e 2012 e o cenário não sendo inesperado é sombrio.

O Banco de Portugal aponta para uma redução de 1,3% do PIB real em 2010, fruto de uma forte contracção da procura interna (-3,6%) , que desce em todas as suas grandes componentes (com a FBCF a cair 6,8%, o consumo público a descer 4,6% e o consumo privado a contrair-se 2,7%)  que é apenas compensada parcialmente pelo aumento das exportações (+5,9%) e a retracção das importações (-1,9%). De acordo com as projecções, em 2011 o PIB deverá crescer 0,6% mas este crescimento será exclusivamente à custa da procura externa uma vez que a procura interna deverá continuar a contrair-se em todas as suas componentes, fruto das medidas de consolidação orçamental e de uma maior restritividade das condições de crédito. Neste contexto, o Banco de Portugal prevê que o emprego se reduza em 1% em 2010 e 0,2% em 2011 o que implicitamente corresponde a uma evolução negativa da produtividade média.

Sendo de salientar que o Banco de Portugal considera existirem "riscos descendentes substanciais sobre a atividade económica no horizonte de projecção".

Igualmente preocupante é o facto de apesar do comportamento favorável da procura externa que permite uma melhoria substancial da balança de bens e serviços, o Banco de Portugal anteveja que o défice da balança corrente e de capital se mantenha em níveis elevados (-7,1% do PIB em 2010 e - 7,0% do PIB em 2011), em resultado da deterioração da balança de rendimentos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O recurso ao FMI

A evolução da taxa de juro da dívida pública portuguesa na última semana, com o yield das emissões a 10 anos a superar claramente os 7% apesar das intervenções do BCE, significa que a já reduzida margem de manobra para evitar o recurso ao FMI e ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira está a esgotar-se rapidamente, surgindo novamente notícias de que os nossos "parceiros" europeus estarão a pressionar para que Portugal solicite rapidamente um pedido de ajuda que a grande maioria dos economistas parece considerar como inevitável.

Particularmente preocupante parece-me, no entanto, a evolução das cotações bolsistas do principais bancos portugueses que afundaram para mínimos históricos pelo que significa em termos de dificuldades de financiamento da nossa economia.