quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sobre a música dos Deolinda - Geração parva

Devo talvez começar adiantar que a música e letra não me dizem muito, que está fora de causa que os níveis de vida e de consumo são em média muito superiores aos que existiam há 15 anos atrás e que concordo que a letra pode ser interpretada como desvalorizando a importância da educação.

Dito isto, parece-me que as razões que justificam o "fenómeno" (se assim o podemos chamar) são sobretudo o facto de  tocar num ponto sensível, exprimindo um certo desencanto difuso de uma (parte) de uma geração que se sente de algum modo bloqueada e desencantada pelo facto de não conseguir encontrar estabilidade no emprego que lhe permita uma vida autónoma.

Parte do problema estará nos níveis de consumo que (muitos) jovens usufruem na "casinha dos pais" e que dificilmente conseguem sustentar no início de carreira (que sempre foi dificil) levando-os a optar por adiar "Filhos, maridos" para poder pagar o carro. Verificando os resultados dos inquéritos ao emprego do INE desde 1998 verificamos no entanto um dado que de algum modo pode ajudar a explicar este desencanto. É que se em 1998 a percentagem dos trabalhadores por conta de outrem com contrato sem termo era de 82,8% (média anual), nos últimos quatro trimestres concluidos em Setembro de 2010 esse valor desceu para apenas 77,0%. Uma diferença de 5 pontos percentuais pode não parecer muito mas é um valor significativo, sobretudo pelo facto de que esse aumento ter-se-á provavelmente concentrado nos trabalhadores mais jovens que serão também já os mais afectados pelo desemprego (em % da população activa) que no mesmo período aumentou de 5% para 10,5%.

Embora não disponha de dados que o fundamentam penso, ainda, que é provável que tenha ocorrido um outro fenómeno. Enquanto até ao final da década de 90 os vínculos precários afectavam sobretudo os trabalhadores pouco qualificados, e não tanto os licenciados, desde então essa precarização passou a afectar muitos licenciados. Fruto por um lado dos efeitos da globalização a que o professor Mário Centeno se referiu na sua entrevista ao Público (ver aqui) que tem exercido pressão "no sentido de aumento do peso de dois tipos de profissões: as muito qualificadas e as pouco qualificadas” e, por outro lado, da redução das oportunidades de emprego no sector estatal que tradicionalmente absorvia uma percentagem substancial dos licenciados que iam saindo das universidades.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Comércio internacional e dormidas em estabelecimentos hoteleiros

De acordo com os dados divulgados pelo INE, em no último trimestre de 2010 as exportações (incluido transmissões intracomunitárias) de bens terão registado um aumento de 15,8% face ao período homólogo, enquanto as importações (incluindo aquisições intracomunitárias) aumentaram 10,3%, traduzindo-se num aumento da taxa de cobertura de 61,4% para 64,5%. O que não terá sido suficiente para impedir um ligeiro aumento do défice comercial (de 5.284 milhões de euros para 5.363 milhões). Por tipo de produtos, o maior aumento nas importações foi o dos "combustíveis e lubrificantes" (+21,3%), enquanto que nas exportações os maiores aumentos registaram-se nas rubricas "material de transporte e acessórios" (+23,5%) e "fornecimentos industriais ne" (+24,4%). Para o conjunto do ano de 2010 as exportações 15,7% aumentaram enquanto que as importações aumentaram 10,5%.

Foram igualmente divulgados as estatísticas das dormidas em estabelecimentos hoteleiros que revelam um aumento de 2,9% face a 2009 (tendo os proveitos totais aumentado 3,2%), situando-se, todavia, ainda cerca de 5,6% abaixo dos níveis registados em 2007. A evolução deste indicador por regiões revelou comportamentos bastante diferentes, pois, enquanto em Lisboa se registou um aumento de 9,3%, na Madeira verificou-se uma redução de 8,9% e no Algarve um crescimento de apenas 2,6%, sendo de assinalar que nestas duas regiões os valores de 2010 estão substancialmente abaixo dos registados em 2007 (-16,4% e 9,8% respectivamente). 
Os dados revelam ainda que a evolução positiva registada em 2010 ficou-se, sobretudo, a dever aos residentes cujas dormidas aumentaram 4,0% (4,2% no Algarve). Enquanto que as dormidas de não-residentes aumentaram apenas 2,2% (2,0% no Algarve, sendo que nesta região as dormidas de não residentes se situaram 16,7% abaixo dos valores de 2007).
Por países de origem ressalta a evolução positiva de Itália (+8,6% e Espanha (+3,1%) enquanto em sentido contrário se registaram quedas na Irlanda (-4,6% face a 2009 e -20,5% face a 2007), Reino Unido (-1,8% face a 2009 e -27,8% face a 2007) e Alemanha (-1,7% face a 2009 e -14,7% face a 2007)

Os resultados da emissão de dívida sindicada

Segundo noticiado o IGCP colocou 3,5 mil milhões de euros em OT's a 5 anos numa emissão de sindicada em que a procura terá excedido 2,4 vezes a oferta e a taxa de juro se fixou nos 6,45%.

Esta operação demosntra que Portugal continua a ter acesso ao mercado obrigacionsta, mas a verdade é quer também revela que o custo financeiro de colocação da dívida continua em níveis muitissimo elevados como se torna evidente quando consideramos que o spread face às yields dos bunds a 5 anos ronda os 400 pontos base (diferença que para os montantes ontem colocados corresponde a um encargo anual de cerca de 140 milhões de euros), que não será sustentável indefinidamente. Não por acaso as yields das OT's a 10 anos mantêm-se claramente acima dos 7% e as das OT's a 2 anos acima dos 4%.

Se até agora o Governo tem conseguido garantir o financiamento da República recorrendo mais intensamente a alternativas de financiamento aos tradicionais leilões de OT's, a verdade é que nos mantemos na "zona de perigo" e que o recurso, ou não, ao auxílio externo (seja do FMI seja do FEEF) dependerá de quatro factores: i) a evolução das negociações a nível europeu sobre o FEEF; ii) a evolução da execução orçamental; iii) a evolução da economia portuguesa e, last but not the least, iv) a normalização da capacidade dos bancos para se obterem financiamento no mercado monetário e obrigacionista. E que, na actual situação, qualquer "derrapagem" numa destas "frentes" pode tornar inelutável o recurso ao auxílio externo que o Governo português tem, até agora, denodadamente conseguido evitar (com a preciosa ajuda, diga-se, do BCE em momentos decisivos).

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A entrevista de Mário Centeno ao P2

Vale a pena ler a entrevista de Mário Centeno, director-adjunto do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal sobre o mercado laboral português hoje publicada no suplemento do jornal Público. O diagnóstico não é novo, e está há muito tempo feito. Portugal tem um mercado de trabalho em dois patamares com “um conjunto de trabalhadores com um elevadíssimo nível de rotação” e um outro segmento constituído por empregos com um grau de protecção muito maior.

Desta entrevista ressalto vários pontos que me parecem fundamentais nesse diagnóstico: i) o peso contratados a prazo já muito elevado (de acordo com os resultados do inquérito ao emprego do INE, os contratados a termo correspondem a 19,4% dos assalariados – valor que aumenta para 23,2% quando consideramos os incluídos noutras situações, enquanto que os assalariados sem termo correspondem a 76,8% dos assalariados e a apenas 52,9% da população activa); ii) as distorções do mercado de trabalho provocadas pela acção do Estado que resulta “[d]essa coisa extraordinária em que o prémio salarial é muito maior nos salários mais baixos do que nos mais altos. O Estado paga muito mais do que os privados às pessoas com menores qualificações e isso distorce tudo. Incluindo o próprio Estado que não consegue atrair os bons quadros porque não lhes paga o suficiente”; iii) o (excessivo) peso dos sindicatos e dos representantes dos sectores não transaccionáveis (incluindo o próprio Estado) na contratação colectiva e na definição das políticas e legislação laborais, em que os economistas estão (quase) ausentes; iv) a tendência global, e não especificamente portuguesa, “no sentido de aumento do peso de dois tipos de profissões: as muito qualificadas e as pouco qualificadas” que faz com que quem esteja a perder neste momento sejam principalmente “a classe média, os indivíduos de qualificações médias e de rendimentos médios, que são os mais fáceis de «exportar»”.

Finalmente, revela que “O que temos não é um aumento do desemprego cíclico, é um aumento estrutural”, referindo que as estimativas do Banco de Portugal apontam para que “A taxa de desemprego natural que estimávamos em 5 pontos percentuais nos anos 90 andará à volta dos 9 por cento”. É normal que a taxa de desemprego estrutural registe um aumento em situações recessivas mas sinceramente o valor adiantado é muito superior ao que eu esperaria pois significa que a taxa de desemprego que no 3.º trimestre foi estimada em 10,9% estaria menos de 2 pontos percentuais acima da taxa natural e que uma parte substancial dos postos de trabalho “perdidos” na recessão são em grande medida “irrecuperáveis”. O que como o Professor Mário Centeno refere é um cenário assustador.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Taxas de câmbio reais e nominais

Chamar a atenção para um artigo de Krugman em que aborda a questão da relação entre as taxas de câmbio reais e nominais, referindo nomeadamente que:
If you have a classical view of the world, you would argue that nominal shocks should affect the nominal, not the real exchange rate: the real exchange rate is a real phenomenon, and money is a veil. Specifically, you’d expect any nominal shock to move the price level by the same amount that they move the exchange rate. In reality, however, what we normally see is that nominal and real exchange rates are very closely correlated.
A razão porque chamo a atenção para este artigo é pelo facto de se relacionar directamente com a chamada "crise do euro" na medida em que este resultado, com o qual concordo e que é empiricamente irrefutável, significa que o ajustamento externo se torna muitissimo mais dificil (e penoso nomeadamente em termos de desemprego) quando, como sucede entre os países da zona euro, não existe possibilidade de alterar a taxa de câmbio.

Poder-se-à pensar - e é essa a filosofia subjacente às posições da Comissão Europeia, BCE e da Alemanha (ver aqui) - que a solução será alterar a taxa de câmbio real via ajustamento (ou seja descida) dos preços e salários. Embora, infelizmente, talvez seja essa a única alternativa disponível face às consequências potencialmente catastróficas de uma saída do euro e à impossibilidade política de uma política orçamental federal a nível da União Europeia, o que aqueles elementos indicam é que sendo os preços (e salários) muito rígidos e tudo indicando que, em boa parte, essa rigidez é inerente ao funcionamento da economia (e não resulta de meros factores institucionais) esse ajustamento implica sacrificios muito significativos (nomeadamente em termos de desemprego e queda do produto) que, além das eventuais repercussões políticas, tenderão a gerar dificuldades acrescidas para o sistema financeiro.

A subida dos preços dos bens alimentares

De acordo com o relatório mais recente divulgado pela FAO, o índice de preços dos bens alimentares registou em Janeiro o valor mais elevado da série iniciada em 1990 com um aumento de 3,4% face ao mês anterior e de cerca de 28,3% face a Janeiro de 2010. Tendo os preços dos cereais, que apesar de tudo estão ainda abaixo dos valores registados entre Fevereiro e Julho de 2008, aumentado 2,9% no último mês e cerca de 43,7% no último ano.



Como é habitual não tem faltado algumas análises a atribuir pelo menos parte da responsabilidade aos especuladores nos mercados financeiros e/ou à política monetário (demasiado) acomodatícia que teria conduzido a um aumento das expectativas de inflação. Nenhuma destas razões me parece poder constituir a principal explicação.

É naturalmente possível que a especulação, nomeadamente através dos mercados de futuros, possa conduzir a um aumento (ou descida) dos preços e eventualmente ter um efeito sobre a volatilidade. Note-se, no entanto, que as operações nos mercados de futuros (em que um operador compra a outro uma determinada quantidade para entrega futura) serão um dia liquidadas e que se nessa altura não houver procura e os preços tiverem descido esses especuladores perderão muito dinheiro. O que significa que, em geral, a evolução nos preços nos mercados de futuros tenderá a acompanhar a expectativas da oferta (produção) e procura (consumo) e que antes de "culparmos" os especuladores deveremos investigar se existem (ou não) factores fundamentais que expliquem o comportamento dos preços.

O argumento da política monetária também parece um pouco estranho. Com efeito, se podemos admitir que as expectativas de inflação levem os agentes a adquirir activos de refúgio cujo valor acompanhe o aumento dos preços. A verdade é que os receios de inflação que existem são sobretudo no médio e longo prazo, não sendo certamente muitos aqueles que anteciparão que a taxa de inflação nas prinicipais economias (EUA, zona euro e Japão) atinja valores sequer próximos dos dois dígitos nos próximos 12-18 meses. Assim, este argumento justificaria a procura de activos de longo prazo (como o ouro, imóveis, depósitos em francos suíços, etc) mas não posições no mercados de futuros que geralmente são para prazos bastante curtos.

Resta-nos enbtão olhar para os fundamentais. E a verdade é que existem factores quer do lado da oferta quer do lado da procura que parece poderem justificar, pelo menos em grande parte, a recente evolução dos preços. Do lado da oferta, as estimativas apontam para uma queda de mais de 5% na produção mundial de trigo em resultado sobretudo da redução da produção na Rússia (de 61,7 milhões de toneladas em 2009/10 para 41,5 milhões em 2010/11) e na Ucrânia (de 20,9 para 17,2 milhões de toneladas) que se explica sobretudo por razões climatéricas. E comparando as estimativas para 2010/11 com a produção em 2008/2009 vemos também descidas consideráveis nos EUA e Canadá.

Mas será uma queda de 5% da produção mundial de trigo suficiente para justificar um aumento de quase 50% nos preços dos cereais, especialmente quando a produção de arroz tem vindo a aumentar pelo que a produção global de cereais cairá "apenas" cerca de 2,7%  ? Sinceramente, apesar do trigo ser apenas um dos cereais  não me parece assim tão dificil acreditar que sim, na medida em que, admitindo a procura estável, estariamos a falar de uma elasticidade procura-preço de cerca entre 0,05 e 0,1, que sendo baixa não parece irrazoável para os bens em causa. Pois, nomeadamente nos países desenvolvidos, não me parece que o consumo de pão, farinhas e outros produtos derivados dos cereais ou carne (boa parte da produção mundial de cereais destina-se à alimentação de gado) seja muito sensível a variações de preço.

Desemprego nos EUA

De acordo com os dados do BLS, em Janeiro a taxa de desemprego nos EUA caiu para os 9,0% (menos 0,4 pontos percentuais do que no mês anterior) o que representa uma redução de 622 mil desempregados e corresponderia a um excelente resultado.

Infelizmente uma análkise mais detalhada dos dados não nos dá grandes razões para tanto optimismo. pois o número de empregados apenas aumentou 117 mil e aquela redução dos desempregados ficou a dever-se, sobretudo, a uma redução da população activa de 504 mil unidades, resultante de uma redução de quase 0,2 pp na taxa de participação e, curiosamente, de uma descida de 185 mil unidades da estimativa da população.

Este comportamento pouco positivo é confirmado pelos dados relativos aos empregados por conta de outrem no sector não agrícola que indicam um aumento global de apenas 36 mil (50 mil no sector privado). Numa análise mais fina verificam-se claras diferenças por sectores. Pois enquanto que o número de empregados na construção e no sector financeiro continuam em queda (em Janeiro estes sectores perderam 32 e 10 mil postos de trabalho, respectivamente) a industria e o comércio a retalho, no primeiro caso exclusivamente em virtude do aumento do emprego na produção de bens duradouros - sobretudo veículos automóveis e maquinaria, revelam um razoável dinamismo, tendo contribuído com aumentos de 49 mil e 27 mil empregados, respectivamente.