quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

BCE is back

De acordo com o blog Alphaville o BCE voltou ao mercado para comprar títulos da dívida portuguesa, fazendo recuar os yields que se mantém, no entanto, em níveis francamente elevados.

Subida das taxas de juro da dívida portuguesa

A subida que se está a registar hoje nos yields da dívida pública portuguesa constituem um sinal deveras preocupante (2 anos, 5 anos e 10 anos), na medida em que coloca as taxas de juro num patamar que ultrapassa claramente as taxas (cerca de 6%) que têm vindo a ser apontado por diversos analistas como o valor máximo a partir do qual a trajectória da dívida pública será insustentável.

Estamos pois perante um cenário em que os riscos de entrar num ciclo vicioso, que torne inevitável o recurso a auxílio externo e/ou a reestrutuiração da dívida, são muitissimo elevados. E que constitui um sério "teste" dos mercados ao BCE, que segundo tem sido noticiado tem estado ausente do mercado nas últimas semanas, e à capacidade da Europa em obter um acordo sobre o aumento do FEEF.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Situação económica e financeira na Irlanda

Para todos os que gostem de acompanhar a evolução da situação a Irlanda, recomendo o relatório hoje divulgado pelo FMI, o qual contem um anexo com bastante informação sobre a evolução dos principais indicadores económicos que como seria de esperar não são famosos. O PIB per capita em 2010 terá sido cerca de 19,7% inferior (em termos nominais) ao de 2007, a taxa de desemprego está nos 13,3% (em 2007, era 4,6%), os preços do imobiliário ter-se-ão reduzido 40-60% (!!) e o investimento, em % do PIB, caiu de 28,0 pp, em 2006, para 11,8 pp, em 2010.

O relatório aponta para que o ponto mais baixo da recessão económica já tenha passado e que estará já em curso uma recuperação baseada num crescimento moderado das exportações.que permitiu um crescimento do PIB no 3.º trimestre face ao trimestre anterior de 0,5%. No que respeita aos objectivos orçamentais indica-se que o crescimento das receitas ficou acima do esperado e que, embora tenha havido alguma derrapagem nas despesas sociais, os objectivos fixados forma atingidos.O ponto mais vulnerável parece ser o sector financeiro que continua sob pressão, mantendo-se as dificuldades de acesso à obtenção de financiamentos nos mercados monetário e obrigacionista e os problemas com a qualidade do crédito (em Setembro a % de créditos em incumprimento rondava os 13%), referindo-se no relatório a propósito do sector bancário que:
While the good start of the process to overhaul the Irish banking system is encouraging, the outstanding challenges are significant. Simultaneously recapitalizing, deleveraging and resolving the nonviable parts of the banking system—in a transparent and competitive manner—would be difficult even in the best of circumstances. Moreover, given that the various elements are interdependent, the inherited stress in the banking system makes implementing a comprehensive and coherent strategy a major operational challenge. For example, the deleveraging process hinges on the accuracy of the asset valuation, the difficulty of which is exacerbated due to market uncertainty.

Sobre a música dos Deolinda - Geração parva

Devo talvez começar adiantar que a música e letra não me dizem muito, que está fora de causa que os níveis de vida e de consumo são em média muito superiores aos que existiam há 15 anos atrás e que concordo que a letra pode ser interpretada como desvalorizando a importância da educação.

Dito isto, parece-me que as razões que justificam o "fenómeno" (se assim o podemos chamar) são sobretudo o facto de  tocar num ponto sensível, exprimindo um certo desencanto difuso de uma (parte) de uma geração que se sente de algum modo bloqueada e desencantada pelo facto de não conseguir encontrar estabilidade no emprego que lhe permita uma vida autónoma.

Parte do problema estará nos níveis de consumo que (muitos) jovens usufruem na "casinha dos pais" e que dificilmente conseguem sustentar no início de carreira (que sempre foi dificil) levando-os a optar por adiar "Filhos, maridos" para poder pagar o carro. Verificando os resultados dos inquéritos ao emprego do INE desde 1998 verificamos no entanto um dado que de algum modo pode ajudar a explicar este desencanto. É que se em 1998 a percentagem dos trabalhadores por conta de outrem com contrato sem termo era de 82,8% (média anual), nos últimos quatro trimestres concluidos em Setembro de 2010 esse valor desceu para apenas 77,0%. Uma diferença de 5 pontos percentuais pode não parecer muito mas é um valor significativo, sobretudo pelo facto de que esse aumento ter-se-á provavelmente concentrado nos trabalhadores mais jovens que serão também já os mais afectados pelo desemprego (em % da população activa) que no mesmo período aumentou de 5% para 10,5%.

Embora não disponha de dados que o fundamentam penso, ainda, que é provável que tenha ocorrido um outro fenómeno. Enquanto até ao final da década de 90 os vínculos precários afectavam sobretudo os trabalhadores pouco qualificados, e não tanto os licenciados, desde então essa precarização passou a afectar muitos licenciados. Fruto por um lado dos efeitos da globalização a que o professor Mário Centeno se referiu na sua entrevista ao Público (ver aqui) que tem exercido pressão "no sentido de aumento do peso de dois tipos de profissões: as muito qualificadas e as pouco qualificadas” e, por outro lado, da redução das oportunidades de emprego no sector estatal que tradicionalmente absorvia uma percentagem substancial dos licenciados que iam saindo das universidades.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Comércio internacional e dormidas em estabelecimentos hoteleiros

De acordo com os dados divulgados pelo INE, em no último trimestre de 2010 as exportações (incluido transmissões intracomunitárias) de bens terão registado um aumento de 15,8% face ao período homólogo, enquanto as importações (incluindo aquisições intracomunitárias) aumentaram 10,3%, traduzindo-se num aumento da taxa de cobertura de 61,4% para 64,5%. O que não terá sido suficiente para impedir um ligeiro aumento do défice comercial (de 5.284 milhões de euros para 5.363 milhões). Por tipo de produtos, o maior aumento nas importações foi o dos "combustíveis e lubrificantes" (+21,3%), enquanto que nas exportações os maiores aumentos registaram-se nas rubricas "material de transporte e acessórios" (+23,5%) e "fornecimentos industriais ne" (+24,4%). Para o conjunto do ano de 2010 as exportações 15,7% aumentaram enquanto que as importações aumentaram 10,5%.

Foram igualmente divulgados as estatísticas das dormidas em estabelecimentos hoteleiros que revelam um aumento de 2,9% face a 2009 (tendo os proveitos totais aumentado 3,2%), situando-se, todavia, ainda cerca de 5,6% abaixo dos níveis registados em 2007. A evolução deste indicador por regiões revelou comportamentos bastante diferentes, pois, enquanto em Lisboa se registou um aumento de 9,3%, na Madeira verificou-se uma redução de 8,9% e no Algarve um crescimento de apenas 2,6%, sendo de assinalar que nestas duas regiões os valores de 2010 estão substancialmente abaixo dos registados em 2007 (-16,4% e 9,8% respectivamente). 
Os dados revelam ainda que a evolução positiva registada em 2010 ficou-se, sobretudo, a dever aos residentes cujas dormidas aumentaram 4,0% (4,2% no Algarve). Enquanto que as dormidas de não-residentes aumentaram apenas 2,2% (2,0% no Algarve, sendo que nesta região as dormidas de não residentes se situaram 16,7% abaixo dos valores de 2007).
Por países de origem ressalta a evolução positiva de Itália (+8,6% e Espanha (+3,1%) enquanto em sentido contrário se registaram quedas na Irlanda (-4,6% face a 2009 e -20,5% face a 2007), Reino Unido (-1,8% face a 2009 e -27,8% face a 2007) e Alemanha (-1,7% face a 2009 e -14,7% face a 2007)

Os resultados da emissão de dívida sindicada

Segundo noticiado o IGCP colocou 3,5 mil milhões de euros em OT's a 5 anos numa emissão de sindicada em que a procura terá excedido 2,4 vezes a oferta e a taxa de juro se fixou nos 6,45%.

Esta operação demosntra que Portugal continua a ter acesso ao mercado obrigacionsta, mas a verdade é quer também revela que o custo financeiro de colocação da dívida continua em níveis muitissimo elevados como se torna evidente quando consideramos que o spread face às yields dos bunds a 5 anos ronda os 400 pontos base (diferença que para os montantes ontem colocados corresponde a um encargo anual de cerca de 140 milhões de euros), que não será sustentável indefinidamente. Não por acaso as yields das OT's a 10 anos mantêm-se claramente acima dos 7% e as das OT's a 2 anos acima dos 4%.

Se até agora o Governo tem conseguido garantir o financiamento da República recorrendo mais intensamente a alternativas de financiamento aos tradicionais leilões de OT's, a verdade é que nos mantemos na "zona de perigo" e que o recurso, ou não, ao auxílio externo (seja do FMI seja do FEEF) dependerá de quatro factores: i) a evolução das negociações a nível europeu sobre o FEEF; ii) a evolução da execução orçamental; iii) a evolução da economia portuguesa e, last but not the least, iv) a normalização da capacidade dos bancos para se obterem financiamento no mercado monetário e obrigacionista. E que, na actual situação, qualquer "derrapagem" numa destas "frentes" pode tornar inelutável o recurso ao auxílio externo que o Governo português tem, até agora, denodadamente conseguido evitar (com a preciosa ajuda, diga-se, do BCE em momentos decisivos).

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A entrevista de Mário Centeno ao P2

Vale a pena ler a entrevista de Mário Centeno, director-adjunto do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal sobre o mercado laboral português hoje publicada no suplemento do jornal Público. O diagnóstico não é novo, e está há muito tempo feito. Portugal tem um mercado de trabalho em dois patamares com “um conjunto de trabalhadores com um elevadíssimo nível de rotação” e um outro segmento constituído por empregos com um grau de protecção muito maior.

Desta entrevista ressalto vários pontos que me parecem fundamentais nesse diagnóstico: i) o peso contratados a prazo já muito elevado (de acordo com os resultados do inquérito ao emprego do INE, os contratados a termo correspondem a 19,4% dos assalariados – valor que aumenta para 23,2% quando consideramos os incluídos noutras situações, enquanto que os assalariados sem termo correspondem a 76,8% dos assalariados e a apenas 52,9% da população activa); ii) as distorções do mercado de trabalho provocadas pela acção do Estado que resulta “[d]essa coisa extraordinária em que o prémio salarial é muito maior nos salários mais baixos do que nos mais altos. O Estado paga muito mais do que os privados às pessoas com menores qualificações e isso distorce tudo. Incluindo o próprio Estado que não consegue atrair os bons quadros porque não lhes paga o suficiente”; iii) o (excessivo) peso dos sindicatos e dos representantes dos sectores não transaccionáveis (incluindo o próprio Estado) na contratação colectiva e na definição das políticas e legislação laborais, em que os economistas estão (quase) ausentes; iv) a tendência global, e não especificamente portuguesa, “no sentido de aumento do peso de dois tipos de profissões: as muito qualificadas e as pouco qualificadas” que faz com que quem esteja a perder neste momento sejam principalmente “a classe média, os indivíduos de qualificações médias e de rendimentos médios, que são os mais fáceis de «exportar»”.

Finalmente, revela que “O que temos não é um aumento do desemprego cíclico, é um aumento estrutural”, referindo que as estimativas do Banco de Portugal apontam para que “A taxa de desemprego natural que estimávamos em 5 pontos percentuais nos anos 90 andará à volta dos 9 por cento”. É normal que a taxa de desemprego estrutural registe um aumento em situações recessivas mas sinceramente o valor adiantado é muito superior ao que eu esperaria pois significa que a taxa de desemprego que no 3.º trimestre foi estimada em 10,9% estaria menos de 2 pontos percentuais acima da taxa natural e que uma parte substancial dos postos de trabalho “perdidos” na recessão são em grande medida “irrecuperáveis”. O que como o Professor Mário Centeno refere é um cenário assustador.