sexta-feira, 25 de março de 2011

Com a corda na garganta

De acordo com as análises  do Royal Bank of Scotland (que tem sido divulgadas via Alphaville) o montante do pacote de ajuda de que Portugal necessita deverá rondar os 80 mil milhões de euros (valor muito próximo dos 75 mil milhões referidos pelo Presidente do Eurogrupo). Também de acordo com o RBS Portugal precisa de (pelo menos ?) mais mil milhões de euros em Abril e terá apenas duas opções para obter esse financiamento:
- emitir títulos que sejam adquiridos pelo sistema bancário português com fundos cedidos pelo BCE ou
- através de empréstimos provisórios cedidos pelo FMI / FEEF.
Se a primeira opção deve deasagradar ao BCE a segunda pode ser dificultada pela ausência de autoridade política para negociar um acordo.
Passado o mês de Abril, de acordo com o mesmo quadro, o serviço de dívida da República Portuguesa em Maio e Junho ascende a 2 mil milhões de euros de juros e 7  mil milhões (juros e reembolso), respectivamente...

Não será certamente por coincidência que (mais uma vez via Alphaville) o Nomura considera para efeitos de "modelização" que o pedido de auxílio irá ocorrer no 2.º trimestre de 2011 ou seja até ao final de Junho.

Taxas de juro seguem em alta

Depois das descidas de rating da República anunciadas pela Fitch e pela Standard & Poors os yields da dívida pública seguem em alta com os referentes à dívida atingido os valores de 7,04%, 8,03%, 8,45% e 7,78%, nos prazos de 2 anos, 3 anos5 anos e 10 anos, respectivamente.

Alguém ainda acredita que é possível evitar o recurso ao FMI / FEEF ?

quinta-feira, 24 de março de 2011

A reacção dos mercados

Dadas as notícias da demissão do Governo após o chumbo do pacote de medidas de austeridade (que levaram a um corte do rating pela Fitch) e as dificuldades da União Europeia em concluir o acordo sobre os mecanismos de auxílio financairo, a verdade é que a subida das taxas de juro da dívida pública portuguesa acabou por ser relativamente moderada.

Mas não tenhamos ilusões com os actuais níveis de taxa de juro (que nos 5 anos subiu para valores superiores a 8,2%) o recurso ao auxílio externo é inevitável e a subida só não foi muito maior porque o mercado já estava a "descontar" que essa ajuda iria ocorrer.

terça-feira, 22 de março de 2011

Isto é muito preocupante

O Jornal de Negócios noticia hoje que a CP não está a conseguir financiar-se no mercado, o que não constituirá propriamente uma grande surpresa. Mas, ainda, mais grave e preocupante é a referencia a que "Além dos 630 milhões de euros que precisava durante este ano, a CP tem de obter mais 120 milhões de euros nos próximos quatro meses, para liquidar antecipadamente um empréstimo que fez no mercado de capitais internacional. A amortização desta dívida deveria ocorrer em 2021, mas segundo sabe o Negócios, com a descida de "rating" da empresa a CP vai ter de amortizar antecipadamente esse empréstimo."

Na actual situação financeira o (re)financiamento destes compromissos terá quase inevitavelmente de ser assumido pelo Estado colocando uma ainda pressão sobre o défice e/ou a dívida pública, tornando ainda mais dificil uma situação já de si insustentável e cada vez mais evidente a inevitabilidade do pedido de auxílio externo.

Programa de Estabilidade e Crescimento 2011-2014

O Programa de Estabilidade e Crescimento para 2011-2014 hoje apresentado no Parlamento prevê para 2011 uma queda do PIB de 0,9% provocada por uma queda de todas as componentes da procura interna (consumo privado: -1,1%; consumo público: -6,8% e investimento: -4,2%), parcialmente compensada pela evolução positiva das exportações (+5,6%) e das importações (-1,1%) e uma redução do emprego de 0,6% que elevará a taxa de desemprego média para 11,2%. Para os anos seguintes prevê-se uma taxa de crescimento de somente 0,3%, 0,7% e 1,3%  e um aumento do emprego de 0,1%, 0,7% e 1,0%. Valores que implicam um aumento da produtividade muito baixo. Enquanto que a FBCF deverá continuar a cair embora a um ritmo mais moderado em 2012 e 2013, apenas subindo ligeiramente em 2014.

No que se refere ao cenário macroeconómico refira-se ainda que apesar deste comportamento as necessidades de financiamento face ao exterior manter-se-ão em valores muito elevados (8,3%, em 2011, 7,0%, em 2012, 5,8%, em 2013, e 4,9% em 2014), valores superiores ao crescimento do PIB e que implicam uma continuação da deterioração da posição de investimento internacional.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A inflação na China

A nível global um dos temas mais importantes dos últimos meses tem sido a discussão em torno da evolução da inflação nas economias emergentes e, em particular, na China onde a taxa de inflação regstou uma subida ao longo de 2010 situando-se em Fevereiro nos 4,9% e relativamente à qual têm surgido várias notícias dando contas de uma pressão altista sobre os salários.

Ora embora esta situação possa obrigar a que as autoridades chinesas tenham de restringir a política monetária e orçamental, como têm começado a fazer, para reduzir a procura e, assim, conter as tensões inflacionistas o que pode ter um efieto negativo sobre o produto mundial, por outro lado, estas tensões tornam mais fácil que a China aceite uma valorização gradual do yuan que tem sido reclamada como uma das medidas necessárias para ajudar a solucionar os desequilibrios macroeconómicos globais. Não será, no entanto, de esperar que essa valorização, por si só, seja suficiente para resolver qualquer dos problemas na medida em que, por um lado, uma valorização forte do yuan podia colocar em risco sectores importantes da sua indústria exportadora e, por outro lado, o efeito dessa alorização sobre a inflação na China seria relativamente limitado.

No entanto, o próprio efeito da inflação tenderá a contribuir para esse reequilíbrio, na medida em que no cenário actual de inflação relativamente baixa nos EUA e na Europa corresponde a uma revalorização real do yuan que, associada a uma subida dos níveis salarias na China, impulsionará o consumo interno e ajudará a redireccionar a economia chinesa para o mercado interno para satisfazer essa mesma procura.

Neste contexto, uma subida moderada da inflação na China é um desenvolvimento positivo para a sustentabilidade da situação da economia mundial.

sábado, 19 de março de 2011

Breve comentário sobre o cenário dos testes de stress

De acordo com a informação disponibilizada pela EBA, os testes de stress que serão publicados em Junho do corrente de ano, serão conduzidos tendo por base os dados de balanço consolidados com referência a 31 de Dezembro de 2010 e a aplicação dos cenários por um período de 2 anos (2011 e 2012) e visam estimar os efeitos ddas variáveis macroeconómicas - PIB, desemprego, taxas de juro, preço do imobiliário, evolução do mercado de acções e das taxas de câmbio - sobre o capital dos bancos, partindo de um cenário base que está em linha com aquelas que são as previsões da Comissão Europeia (para a zona euro: crescimento de 1,5% em 2011 e 1,8% em 2012, redução gradual dos défices públicos e do desemprego e inflação média de 1,75%), sobre o qual se aplicam choques externos que se traduzem num "cenário adverso" hipotético.

Deve-se dizer que o "cenário adverso" é bastante exigente correspondendo, por exemplo, para Portugal a um cenário hipotético de redução do PIB de 3% em 2011 e 2,6% em 2019, uma taxa de desemprego de 12,9% no final de 2012, taxa de juro de longo prazo acima dos 9% em ambos os anos e uma queda dos preços do imobiliário (residencial) de 2,9% em 2011 e 8,4% em 2012 e uma queda das cotações em bolsa de cerca de 15%. Sendo certo que é sempre possível imaginar situações em que estas variáveis poderão assumir valores ainda mais adversos parece-me um cenário razoavelmente pessimista para os efeitos pretendidos.

A grande questão dos resultados de stress e a razão pelo qual os mesmos dificilmente serão considerados como satisfatórios por muitos investidores não serão pois tanto os cenários considerados, mas o que não é testado. Com efeito, nos testes em causa não será explicitamente analisado o risco de liquidez - que muitos apontam como um elemento crucial - e, sobretudo, os efeitos da "crise da dívida soberana" apenas são tidos em conta relativamente aos títulos detidos na carteira de negociação e não nos títulos detidos até à maturidade, o que sendo consistente com a hipótese de que não haverá reestruturação da dívida não deixará de ser criticado por muitos analistas numa altura em que se fala cada vez com mais insistência numa reestruturação da dívida pública grega.