terça-feira, 12 de abril de 2011

Previsões do FMI - World Economic Outlook (WEO)

De acordo com as projecções do WEO o crescimento mundial registou uma desaceleração ao longo do ano de 2010 (de 5 1/4% no primeiro semestre para 3 3/4% no segundo semestre) que reflectirá o ciclo normal de stocks, considerando o FMI que o crescimento se tornou mais auto-sustentado, continuando, no entanto, a existir um marcado contraste entre, por um lado, a recuperação lenta nas economias mais avançadas (EUA, Zona Euro e Japão) onde o desemprego permanece em níveis elevados e, por outro lado,
as economias emergentes que tem registado um crescimento robusto e que têm taxas de desemprego realtivamente baixas.

No que respeita às perspectivas para 2011 e 2012, prevê-se que o PIB mundial aumente 4,4% em 2011 e 4,5% em 2012, mantendo-se este contraste entre as economias avançadas (para as quais se prevê um crescimento de 2,4% em 2011 e 2,6% em 2012) e as economias emergentes (6,5% em 2011 e 2012).

No relatório chama-se a ateñção para a subida dos preços das matérias primas que regressaram rapidamente aos níveis elevados de 2008, devido a factores estruturais (relacionados com o rápido crescimento da actividade das economias emergentes) e conjunturais (relacionados com a evolução da produção de petróleo dos países da OPEP e com a instabilidade política no Médio Oriente e Norte de África. O que está a gerar/acentuar os desequilíbrios entre as economias importadoras e exportadoras de bens primárias constitui um dos factores que explica o ressurgimento da inflação que se está a verificar especialmente nas economias emergentes onde o FMI identifica sinais de um possível sobreaquecimento referindo naquele que quanto a mim será um dos parágrafos mais importantes do relatório que "Growth in these [emerging] economies could surprise on the upside in the short term because of relatively loose macroeconomic policies (...), but medium-term risks are to the downside" e que poderão levar a "tighter cyclical conditions in emerging market economies than assumed in the WEO projections. Under this scenario, higher interest rates, weaker future income growth, and the impact of fiscal adjustment correct excesses that have built up during the boom phase but at the price of a global economic bust, including a large drop in commodity prices. Global imbalances between advanced economies and emerging Asia would widen again under such a scenario, while imbalances involving commodity exporters would diminish."

Do ponto de vista das respostas de política económica adequadas às circunstâncias actuais, nomeadamente nos EUA e zona euro, o FMI defende que existe espaço para a manutenção de taxas de juro a níveis muito baixos e a necessidade de medidas de consolidação orçamental que reestabeleçam a sustentatibilidade das finanças públicas.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Macroeconomia

Ainda no segundo capítulo do seu livro, Vitor Bento explica-nos a importância da Macroeconomia e, recusando a fórmula de que "não existe macroeconomia, só microeconomia e má economia", refere a importância desta enquanto ramo da Economia pelo facto de que "a multiplicação de decisões individuais cria um resultado qualitativamente diferente do que seria a mera soma dos resultados individuais" e, aspecto da maior importância, por "a multiplicação de decisões individualmente racionais não garante que o resultado agregado seja racional o que requer, entre outras coisas, a necessidade de uma instância coordenadora/reguladora dessas decisões - o Estado - para preservar a racionalidade do resultado agregado".

O que ilustra através de uma história de um grupo de amigos que faz um passeio de barco para ver golfinhos em que "De repente, perto de um dos bordos do barco aparecem golfinhos aos saltos (...) A escolha racional de cada passageiro, tendo em vista maximizar o seu prazer, é dirigir-se rapidamente à amurada para obter a melhor vista do evento. Mas, se todos fizerem essa escolha e forem consistentes com ela, o barco provavelmente adornará e todos acabarão na água. (...) Mais ainda: mesmo que alguns, poucos, entendam manter-se afastados do brodo mais desejado, acabarão também arrastados para o desastre provocado pela escolha massificada". Pelo que "só a intervenção da tripulação, regulando os acessos à amurada pretendida e evitando o afluxo simultâneo de passageiros, poderá evitar o desastre".

A semelhança desta situação com o que ocorreu (e está a ocorrer neste momento em Portugal) não é pura coincidência como nos revelam as páginas seguintes onde nos conta, sem nunca chegar a dizer que foi o que aconteceu em Portugal, a seguinte história: "Suponha-se que uym país era, em pouco tempo confrontado com uyma queda significativa das suas taxas de juro, provocada por motivos exógenos (...) Nesta cirscunstância, é totalmente racional que cada família, por exemplo, queira antecipar a realização das suas aspirações de vida endividando-se (...) O problema é que se todas - ou grande parte - das famílias decidirem fazer o mesmo, ao mesmo tempo (...) essa acumulação de decisões individualmente racionais vai acabar por influenciar desfavoravelmente, pelos desequilibrios que desencadeará, as perspectivas de rendimentos futuros (...) [e] as expectativas de melhoria de vida podem não se vir a materializar ou (...) poderão ser revertidas a meio caminho, por entretanto (...) se ter gerado uma crise económica (...) E o que era perfeitamente racional caso a caso deixou de o ser pelo efeito cumulativo e pelo turbilhão desestabilizador desse efeito".

Neste quadro em que não existe nenhum mecanismo auto-regulador dos desequilíbrios, ou pelo menos um nenhum suficientemente eficiente, estamos no contexto tipicamente Keynesiano em que o Estado pode através de um papel activo garantir a sustentabilidade macroeconómica utilizando os instrumentos ao seu dispor, o que na situação descrita poderia passar pela: i) imposição de "regras mais apertadas à concessão de crédito"; ii) aumento dos impostos; e/ou iii) redução da despesa do Estado.

domingo, 10 de abril de 2011

Economia, ciência inexacta

No segundo capítulo do livro Economia, Moral e Política, Vitor Bento destaca o carácter inexacto da ciência económica que resulta do grau de autonomia individual dos agentes económicos com uma enorme "diversidade de preferências, motivações e idiossiuncracias" que tornam impossível a representação exacta da realidade social por um qualquer modelo. Acrescentando que mesmo que tal fosse possível o modelo rapidamente ficaria desactualizado dada a dinâmica dessa realidade social e a sua inerente complexidade, que envolve multiplas interacções e não-linearidades.

Neste contexto, a Economia surge como uma ciência aproximada fundada uma base probabilistica que permite identificar grandes tendências comportamentais e com elas teorizar, as quais sendo aproximadas não deixam de ser úteis.

Neste capítulo chama-se ainda a atenção para a dificuldade em testar a veracidade das teorias económicas o que "permite que teorias divergentes ou contraditórias disputem, durante largo tempo, o generalizado reconhecimento, mesmo no mundo académico, sem possibilidade de refutação categóricas"

PS: Este post continua a leitura do livro do Prof. Vitor Bento que iniciamos aqui.

PS2: Curiosamente entre as mensagens deste blog mais vistas dos últimos dias conta-se uma (ver aqui) de Maio de 2009 de que já não me recordava e que, sinceramente, gostei de reler.

sábado, 9 de abril de 2011

Espanha: o dominó que se segue ?

Do ponto de vista internacional, a grande preocupação será que a Espanha possa ser o próximo dominó da chamada crise da dívida soberana. Espanha que - conjuntamente com a (felizmente para ela muitas vezes injustamente esquecida) Itália - pela sua dimensão sempre constituiu a grande preocupação dos (muitos) economistas que consideram que a actual crise pode colocar em risco a própria manutenção do euro e que se encontra na já conhecida situação de yter que afirmar que "não é Portugal" e que não está em risco de ter de pedir assistência internacional.

E a verdade é que os indicadores orçamentais permitem algum optimismo. Com efeito embora o défice orçamental em 2009 tenha atingido os 11,1% do PIB a dívida pública espanhola em 2007 correspondia a somente 36,1% do PIB Espanha tinha antes de 2007 e que, de acordo com a base de dados da AMECO, no final de 2010 ascenderia apenas a cerca de 64,4% do PIB (significativamente abaixo dos 140,2% do PIB para a Grécia e dos 82,8% para Portugal - valor entretanto revisto em alta) e onde o défice externo se reduziu já significativamente (de 9,2% do PIB em 2008 para 4,3% em 2010).

A Espanha tem no entanto um calcanhar de Aquiles na situação dos seus bancos fruto do rebentar da bolha imobiliária e que implcia um risco não negligenciável de um cenário semelhante ao ocorrido na Irlanda (onde os défices resultantes da quebra de receitas e do saneamento do sector financeiro fizeram aumentar a dívida pública de uns aparentemente confortáveis 25% do PIB em 2007 para 97,4% do PIB em 2010), beneficiando contudo de uma economia mais diversificada e apesar de tudo menos dependente dos sectores imobiliário e financeiro do que a economia irlandesa.

O que parece ser suficientes para afastar a necessidade de uma intervenção no curto prazo e sustentar algum optimismo moderado relativamente à evolução futura da situação económica e financeira de Espanha.

Notas sobre o acordo com a UE / FMI

A declaração de ontem do Conselho Ecofin informal de Budapeste que estabelece os termos principais do programa de ajustamento de que depende a assistência financeira que, de acordo com o que tem vindo a ser anunciado, deverá ascender a cerca de 80 mil milhões de euros dos quais dois terços financiados através do FEEF e um terço com origem no FMI é politicamente muito dura, afastando a possibilidade de uma solução intercalar que deixasse a negociação de um acordo global de médio prazo para o governo que sair das eleições de 5 de Junho.

O que significa que, embora teoricamente seja possível, será muito dificil que o futuro Governo venha a conseguir obter alterações significativas relativamente às medidas que vierem a ser aceites, cujo conteúdo concreto será objecto de negociação no quadro da missão conjunta da UE / FMI que deverá iniciar-se já durante a próxima semana e estar concluida até meados de Maio (ou seja, exactamente antes do inicio oficial da campanha eleitoral)  e que inevitavelmente terão um efeito fortemente recessivo sobre a economia portuguesa em 2011 e 2012.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Declaração do Eurogrupo e do Conselho Ecofin

Já está disponível (via Alphaville) a declaração do Eurogrupo e do Ecofin relativa ao pedido de ajuda apresentado por Portugal.

A declaração torna claro que a assistência financeira a conceder ocorrerá no quadro de um programa conjunto da União Europeia e do FMI que, no que respeita à parte europeia será financiado através do FEEF e do MEE. Referindo que a ajuda ocorrerá num quadro de condicionalidade estrita negociado com as autoridades portuguesas e envolvendo os principais partidos portugueses.

Este programa basear-se-á em três pilares:
- um programa de ajustamento da sustentabilidade orçamental ambicioso;
- medidas de reforma estruturais para eliminar as rigidezes nos mercados de produto e labora e que incluirá um ambicioso programa de privatizações;
- medidas para garantir a liquidez e solvabilidade do sistema financeiro.

Este programa deverá basear-se nas medidas anunciadas pelo Governo no passado dia 11 de Março (ou seja do PEC IV), apelando-se a todos os partidos para que concluam rapidamente um acordo sobre o programa de ajustamento e, após as eleições, formem um novo Governo que adopte e implemente integralmente as medidas de consolidação orçamental e estruturaus que venham a ser acordadas.

A declaração inicial do Presidente do BCE

Na declaração inicial que antecedeu as respostas a questões em que admitiu que o BCE "encorajou" o Governo português a pedir ajuda externa o presidente do BCE manifestou a sua preocupação com os riscos inflaccionistas

"Risks to the medium-term outlook for price developments remain on the upside. They relate, in particular, to higher than assumed increases in energy prices, not least owing to ongoing political tensions in North Africa and the Middle East. More generally, strong economic growth in emerging markets, supported by ample liquidity at the global level, may further fuel commodity price rises. Moreover, increases in indirect taxes and administered prices may be greater than currently assumed, owing to the need for fiscal consolidation in the coming years. Finally, risks also relate to stronger than expected domestic price pressures in the context of the ongoing recovery in activity."
O que indica que se seguirão mais subidas das taxas directoras do BCE ao longo do corrente ano, o que tem conduzido a uma subida das taxas de juro do mercado monetário, onde a Euribor a 12 meses está já acima dos 2%.