Além do seu efeito sobre a inflação, o aumento dos preços do petróleo corresponde a uma transferência de rendimento dos países importadores - que ficam mais pobres - em favor dos países exportadores de petróleo - que ficam mais ricos - agravando os desequilíbrios de balança de pagamentos entre estes países e que tende a prejudicar particularmente os países mais pobres.
Spyros Andreopoulos do Morgan Stanley (via Alphaville) procurou responder às seguintes questões: 1) qual a dimensão dessa transferência de riqueza dos páises importadores para os países exportadores de petróleo ? 2) Qual a parte desses montantes que "regressa" aos países importadores de petróleo através do aumento das importações dos países produtores de petróleo ? 3) Qual o impacto dessa transferência sobre os mercados de activos ? 4) Qual será o valor dessa transferência e da destriuição de riqueza se o preço do petróleo continuar a subir e 5) Quais as consequências para a economia global?
Tendo chegado às seguintes respostas: 1) Cerca de 3,2 milhões de milhões de USD, que correspondem a mais de 3,5% do PIB dos países importadores de pet´róleo; 2) Cerca de 50%, admitindo no entanto que este valor possa subir em virtude dos esforços para manter a estabilidade política via aumento da despesa 3) Cerca de 1 milhão de milhões de USD serão poupoados e reinvestidos em activos apoiando os respectivos preços; 4) Se o preço do petróleo subir para uma média de 140 USD por barril a transferência de riqueza anual aumentará para quase 3 milhões de milhões de USD, que correspondem a 4,5% do PIB dos países importadores de petróleo; 5) No caso do preço do petróleo subir sustentadamente para uma média de 140 USD tal poderá provocar um cenário estagflação para a economia mundial.
Isto numa altura em que crescem os receios de que a inflação na China já esteja a escapar ao controlo (ver aqui) e os últimos números não são nada animadores apontando que a inflação na China tenha atringido os 5,4% impulsionada por uma subida de 11,7% dos preços dos bens alimentares (ver aqui).
sexta-feira, 15 de abril de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
As perguntas de Pedro Passos Coelho
Independentemente do tom, eventualmente um pouco excessivo, da declaração pública de Pedro Passos Coelho parece-me inegável que qualquer apresentação de propostas sérias exige que previamente se disponha de informações sobre a real situação financeira do país e as questões que o PSD pretende ver esclarecidas parecem-me razoáveis e adequadas ao exercício que é necessário efectuar.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A tempestade perfeita ?
De acordo com o INE em Março a taxa de inflação homóloga atingiu o 4% pressionada pela subida dos preços dos produtos energéticos (que subiram 13,3%) e dos produtos alimentares (subida de 4,6%). Conjugada com a tendência de subida das taxas de juro do mercado monetário e os efeitos sobre os rendimentos que se adivinham vir resultar do programa de assistência financeira do FMI... estamos perante um cenário extremamente negativo para a evolução do rendimento disponível das famílias nos próximos meses que não deverá deixar de ter efeitos significativos sobre a evolução do consumo privado, componente que representa cerca de 65% do PIB.
As projecções do WEO do FMI para Portugal
De acordo com as previsões do FMI para Portugal o PIB deveria cair 1,5% este ano e 0,5% no próximo ano enquanto que a taxa de desemprego atingiria 11,9% em 2011 e 12,4% em 2012.
Note-se, no entanto, que a realidade será provavelmente pior, pois estas projecções não incluem o efeito das medidas constantes do PEC IV nem do programa de ajustamento que será acordado e de acordo com as mesmas previsões o défice orçamental seria de 5,6% do PIB em 2011 e 5,5% do PIB em 2012, mantendo-se em níveis acima dos 5% no período até 2016. O que significa que para atingir uma situação sustentável das finanças públicas será necessário introduzir medidas restritivas que irão ter um efeito recessivo e, ceteris paribus, traduzir-se numa recessão mais profunda.
Note-se, ainda, que de acordo com aquelas previsões o défice externo seria de 8,7% do PIB em 2011 e de 8,5% em 2012, mantendo-se acima dos 6% nos três anos seguintes, o que significaria uma continuação da deterioração da posição de investimento internacional do nosso país.
Note-se, no entanto, que a realidade será provavelmente pior, pois estas projecções não incluem o efeito das medidas constantes do PEC IV nem do programa de ajustamento que será acordado e de acordo com as mesmas previsões o défice orçamental seria de 5,6% do PIB em 2011 e 5,5% do PIB em 2012, mantendo-se em níveis acima dos 5% no período até 2016. O que significa que para atingir uma situação sustentável das finanças públicas será necessário introduzir medidas restritivas que irão ter um efeito recessivo e, ceteris paribus, traduzir-se numa recessão mais profunda.
Note-se, ainda, que de acordo com aquelas previsões o défice externo seria de 8,7% do PIB em 2011 e de 8,5% em 2012, mantendo-se acima dos 6% nos três anos seguintes, o que significaria uma continuação da deterioração da posição de investimento internacional do nosso país.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Previsões do FMI - World Economic Outlook (WEO)
De acordo com as projecções do WEO o crescimento mundial registou uma desaceleração ao longo do ano de 2010 (de 5 1/4% no primeiro semestre para 3 3/4% no segundo semestre) que reflectirá o ciclo normal de stocks, considerando o FMI que o crescimento se tornou mais auto-sustentado, continuando, no entanto, a existir um marcado contraste entre, por um lado, a recuperação lenta nas economias mais avançadas (EUA, Zona Euro e Japão) onde o desemprego permanece em níveis elevados e, por outro lado,
as economias emergentes que tem registado um crescimento robusto e que têm taxas de desemprego realtivamente baixas.
No que respeita às perspectivas para 2011 e 2012, prevê-se que o PIB mundial aumente 4,4% em 2011 e 4,5% em 2012, mantendo-se este contraste entre as economias avançadas (para as quais se prevê um crescimento de 2,4% em 2011 e 2,6% em 2012) e as economias emergentes (6,5% em 2011 e 2012).
No relatório chama-se a ateñção para a subida dos preços das matérias primas que regressaram rapidamente aos níveis elevados de 2008, devido a factores estruturais (relacionados com o rápido crescimento da actividade das economias emergentes) e conjunturais (relacionados com a evolução da produção de petróleo dos países da OPEP e com a instabilidade política no Médio Oriente e Norte de África. O que está a gerar/acentuar os desequilíbrios entre as economias importadoras e exportadoras de bens primárias constitui um dos factores que explica o ressurgimento da inflação que se está a verificar especialmente nas economias emergentes onde o FMI identifica sinais de um possível sobreaquecimento referindo naquele que quanto a mim será um dos parágrafos mais importantes do relatório que "Growth in these [emerging] economies could surprise on the upside in the short term because of relatively loose macroeconomic policies (...), but medium-term risks are to the downside" e que poderão levar a "tighter cyclical conditions in emerging market economies than assumed in the WEO projections. Under this scenario, higher interest rates, weaker future income growth, and the impact of fiscal adjustment correct excesses that have built up during the boom phase but at the price of a global economic bust, including a large drop in commodity prices. Global imbalances between advanced economies and emerging Asia would widen again under such a scenario, while imbalances involving commodity exporters would diminish."
Do ponto de vista das respostas de política económica adequadas às circunstâncias actuais, nomeadamente nos EUA e zona euro, o FMI defende que existe espaço para a manutenção de taxas de juro a níveis muito baixos e a necessidade de medidas de consolidação orçamental que reestabeleçam a sustentatibilidade das finanças públicas.
as economias emergentes que tem registado um crescimento robusto e que têm taxas de desemprego realtivamente baixas.
No que respeita às perspectivas para 2011 e 2012, prevê-se que o PIB mundial aumente 4,4% em 2011 e 4,5% em 2012, mantendo-se este contraste entre as economias avançadas (para as quais se prevê um crescimento de 2,4% em 2011 e 2,6% em 2012) e as economias emergentes (6,5% em 2011 e 2012).
No relatório chama-se a ateñção para a subida dos preços das matérias primas que regressaram rapidamente aos níveis elevados de 2008, devido a factores estruturais (relacionados com o rápido crescimento da actividade das economias emergentes) e conjunturais (relacionados com a evolução da produção de petróleo dos países da OPEP e com a instabilidade política no Médio Oriente e Norte de África. O que está a gerar/acentuar os desequilíbrios entre as economias importadoras e exportadoras de bens primárias constitui um dos factores que explica o ressurgimento da inflação que se está a verificar especialmente nas economias emergentes onde o FMI identifica sinais de um possível sobreaquecimento referindo naquele que quanto a mim será um dos parágrafos mais importantes do relatório que "Growth in these [emerging] economies could surprise on the upside in the short term because of relatively loose macroeconomic policies (...), but medium-term risks are to the downside" e que poderão levar a "tighter cyclical conditions in emerging market economies than assumed in the WEO projections. Under this scenario, higher interest rates, weaker future income growth, and the impact of fiscal adjustment correct excesses that have built up during the boom phase but at the price of a global economic bust, including a large drop in commodity prices. Global imbalances between advanced economies and emerging Asia would widen again under such a scenario, while imbalances involving commodity exporters would diminish."
Do ponto de vista das respostas de política económica adequadas às circunstâncias actuais, nomeadamente nos EUA e zona euro, o FMI defende que existe espaço para a manutenção de taxas de juro a níveis muito baixos e a necessidade de medidas de consolidação orçamental que reestabeleçam a sustentatibilidade das finanças públicas.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Macroeconomia
Ainda no segundo capítulo do seu livro, Vitor Bento explica-nos a importância da Macroeconomia e, recusando a fórmula de que "não existe macroeconomia, só microeconomia e má economia", refere a importância desta enquanto ramo da Economia pelo facto de que "a multiplicação de decisões individuais cria um resultado qualitativamente diferente do que seria a mera soma dos resultados individuais" e, aspecto da maior importância, por "a multiplicação de decisões individualmente racionais não garante que o resultado agregado seja racional o que requer, entre outras coisas, a necessidade de uma instância coordenadora/reguladora dessas decisões - o Estado - para preservar a racionalidade do resultado agregado".
O que ilustra através de uma história de um grupo de amigos que faz um passeio de barco para ver golfinhos em que "De repente, perto de um dos bordos do barco aparecem golfinhos aos saltos (...) A escolha racional de cada passageiro, tendo em vista maximizar o seu prazer, é dirigir-se rapidamente à amurada para obter a melhor vista do evento. Mas, se todos fizerem essa escolha e forem consistentes com ela, o barco provavelmente adornará e todos acabarão na água. (...) Mais ainda: mesmo que alguns, poucos, entendam manter-se afastados do brodo mais desejado, acabarão também arrastados para o desastre provocado pela escolha massificada". Pelo que "só a intervenção da tripulação, regulando os acessos à amurada pretendida e evitando o afluxo simultâneo de passageiros, poderá evitar o desastre".
A semelhança desta situação com o que ocorreu (e está a ocorrer neste momento em Portugal) não é pura coincidência como nos revelam as páginas seguintes onde nos conta, sem nunca chegar a dizer que foi o que aconteceu em Portugal, a seguinte história: "Suponha-se que uym país era, em pouco tempo confrontado com uyma queda significativa das suas taxas de juro, provocada por motivos exógenos (...) Nesta cirscunstância, é totalmente racional que cada família, por exemplo, queira antecipar a realização das suas aspirações de vida endividando-se (...) O problema é que se todas - ou grande parte - das famílias decidirem fazer o mesmo, ao mesmo tempo (...) essa acumulação de decisões individualmente racionais vai acabar por influenciar desfavoravelmente, pelos desequilibrios que desencadeará, as perspectivas de rendimentos futuros (...) [e] as expectativas de melhoria de vida podem não se vir a materializar ou (...) poderão ser revertidas a meio caminho, por entretanto (...) se ter gerado uma crise económica (...) E o que era perfeitamente racional caso a caso deixou de o ser pelo efeito cumulativo e pelo turbilhão desestabilizador desse efeito".
Neste quadro em que não existe nenhum mecanismo auto-regulador dos desequilíbrios, ou pelo menos um nenhum suficientemente eficiente, estamos no contexto tipicamente Keynesiano em que o Estado pode através de um papel activo garantir a sustentabilidade macroeconómica utilizando os instrumentos ao seu dispor, o que na situação descrita poderia passar pela: i) imposição de "regras mais apertadas à concessão de crédito"; ii) aumento dos impostos; e/ou iii) redução da despesa do Estado.
O que ilustra através de uma história de um grupo de amigos que faz um passeio de barco para ver golfinhos em que "De repente, perto de um dos bordos do barco aparecem golfinhos aos saltos (...) A escolha racional de cada passageiro, tendo em vista maximizar o seu prazer, é dirigir-se rapidamente à amurada para obter a melhor vista do evento. Mas, se todos fizerem essa escolha e forem consistentes com ela, o barco provavelmente adornará e todos acabarão na água. (...) Mais ainda: mesmo que alguns, poucos, entendam manter-se afastados do brodo mais desejado, acabarão também arrastados para o desastre provocado pela escolha massificada". Pelo que "só a intervenção da tripulação, regulando os acessos à amurada pretendida e evitando o afluxo simultâneo de passageiros, poderá evitar o desastre".
A semelhança desta situação com o que ocorreu (e está a ocorrer neste momento em Portugal) não é pura coincidência como nos revelam as páginas seguintes onde nos conta, sem nunca chegar a dizer que foi o que aconteceu em Portugal, a seguinte história: "Suponha-se que uym país era, em pouco tempo confrontado com uyma queda significativa das suas taxas de juro, provocada por motivos exógenos (...) Nesta cirscunstância, é totalmente racional que cada família, por exemplo, queira antecipar a realização das suas aspirações de vida endividando-se (...) O problema é que se todas - ou grande parte - das famílias decidirem fazer o mesmo, ao mesmo tempo (...) essa acumulação de decisões individualmente racionais vai acabar por influenciar desfavoravelmente, pelos desequilibrios que desencadeará, as perspectivas de rendimentos futuros (...) [e] as expectativas de melhoria de vida podem não se vir a materializar ou (...) poderão ser revertidas a meio caminho, por entretanto (...) se ter gerado uma crise económica (...) E o que era perfeitamente racional caso a caso deixou de o ser pelo efeito cumulativo e pelo turbilhão desestabilizador desse efeito".
Neste quadro em que não existe nenhum mecanismo auto-regulador dos desequilíbrios, ou pelo menos um nenhum suficientemente eficiente, estamos no contexto tipicamente Keynesiano em que o Estado pode através de um papel activo garantir a sustentabilidade macroeconómica utilizando os instrumentos ao seu dispor, o que na situação descrita poderia passar pela: i) imposição de "regras mais apertadas à concessão de crédito"; ii) aumento dos impostos; e/ou iii) redução da despesa do Estado.
domingo, 10 de abril de 2011
Economia, ciência inexacta
No segundo capítulo do livro Economia, Moral e Política, Vitor Bento destaca o carácter inexacto da ciência económica que resulta do grau de autonomia individual dos agentes económicos com uma enorme "diversidade de preferências, motivações e idiossiuncracias" que tornam impossível a representação exacta da realidade social por um qualquer modelo. Acrescentando que mesmo que tal fosse possível o modelo rapidamente ficaria desactualizado dada a dinâmica dessa realidade social e a sua inerente complexidade, que envolve multiplas interacções e não-linearidades.
Neste contexto, a Economia surge como uma ciência aproximada fundada uma base probabilistica que permite identificar grandes tendências comportamentais e com elas teorizar, as quais sendo aproximadas não deixam de ser úteis.
Neste capítulo chama-se ainda a atenção para a dificuldade em testar a veracidade das teorias económicas o que "permite que teorias divergentes ou contraditórias disputem, durante largo tempo, o generalizado reconhecimento, mesmo no mundo académico, sem possibilidade de refutação categóricas"
PS: Este post continua a leitura do livro do Prof. Vitor Bento que iniciamos aqui.
PS2: Curiosamente entre as mensagens deste blog mais vistas dos últimos dias conta-se uma (ver aqui) de Maio de 2009 de que já não me recordava e que, sinceramente, gostei de reler.
Neste contexto, a Economia surge como uma ciência aproximada fundada uma base probabilistica que permite identificar grandes tendências comportamentais e com elas teorizar, as quais sendo aproximadas não deixam de ser úteis.
Neste capítulo chama-se ainda a atenção para a dificuldade em testar a veracidade das teorias económicas o que "permite que teorias divergentes ou contraditórias disputem, durante largo tempo, o generalizado reconhecimento, mesmo no mundo académico, sem possibilidade de refutação categóricas"
PS: Este post continua a leitura do livro do Prof. Vitor Bento que iniciamos aqui.
PS2: Curiosamente entre as mensagens deste blog mais vistas dos últimos dias conta-se uma (ver aqui) de Maio de 2009 de que já não me recordava e que, sinceramente, gostei de reler.
Subscrever:
Mensagens (Atom)