quarta-feira, 15 de junho de 2011

Indicador avançado da OCDE

Os indicadores compósitos de clima económico da OCDE apontam para uma desaceleração moderada da actividade económica com sinais de abrandamento na França, Itália, Canadá, China, Brasil, India e Rússia, enquanto que o ritmo de crescimento parece ter estabilizado na Alemanha, Reino Unido e acelerado ligeiramente nos EUA.

Num dia em que foi anunciado que a inflação na China atingiu em Maio os 5,5% que corresponde ao valor mais elevado dos últimos três anos levando o banco central a subir as exigências de reservas e em que as vendas a retalho nos EUA cairam 0,2% face ao mês anterior (que estão, no entanto, 7,7% acima do nível de Maio de 2010).

Trata-se de um conjunto de sinais que indica que o crescimento económico global está a desacelerar significativamente sendo, no entanto, ainda demasiado cedo para prever se se trata de uma mera pausa provocada pela subida dos preços de petróleo (e outras matérias primas) ou de algo mais preocupante, a verdade é que não é fácil perspectivar quais as fontes de procura final a nível global que poderão contribuir sustentar um crescimento a taxas rázoáveis.

terça-feira, 14 de junho de 2011

The Big Short - Michael Lewis



É um excelente relato da história da crise do mercado subprime nos EUA centrado no punhado de investidores que se previram a catástrofe e que descreve a combinação de ganância, falta de ética e incompetência que conduziram ao colapso deste mercado que estve na origem da maior crise económica e financeira desde a Grande Depressão dos anos 30.

Escrito num estilo de excelente jornalismo, este livro descreve a máquina que criou milhões de milhões de dólares de empréstimos de empréstimos subprime que depois eram "transformados" em activos supostamente sem risco com o beneplácito das autoridades de supervisão e a "cumplicidade"  das agências de notação que são descritas no livro como "morally banckrupt and living in fear of being actually bankrupt", cujos modelos inteiramente desadequados e um conhecimento limitado dos activos em que se baseavam os títulos - cujos riscos os próprios administradores dos bancos de investimento que os criavam eram incapazes de compreender - a que atribuiam notações que eram "colocados" junto de investidores que confiavam nesses ratings sem terem consciência dos riscos envolvidos conduzindo a um mundo em que "too many people were taking far too may financial statemens on faith".

Confiança que se desmoronou quando o nível de incumprimento nos empréstimos subprime começou a aumentar e os CDO (Collateralized Debt Obligations)  baseados nesses empréstimos perderam a quase totalidade do seu valor, gerando perdas de centenas de milhares de milhões de dólares e forçando à intervenção maciça dos bancos centrais e dos governos para evitar o colapso do sistema financeiro.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ler os Outros: Cavar batatas - João Miranda

"Num momento em que Portugal atravessa uma situação particularmente difícil, estabeleceu-se entre os responsáveis políticos um estranho consenso: temos que apostar na agricultura. São os mesmos que disseram que tinhamos que apostar nas auto-estradas, na Expo 98, na construção de estádios, na tecnologia, na educação e no TGV, mas nunca cuidaram de garantir que as apostas seriam sustentáveis. É mais uma de uma longa lista de “apostas”, “prioridades nacionais” e “opções estratégicas”. Desta vez mandam-nos cavar para o campo. A sugestão revela uma grande ignorância sobre as condições de Portugal para a agricultura, sobre o papel da agricultura num país desenvolvido (sempre menos de 3% do PIB) e sobre o princípio das vantagens comparativas. Tenho 2 sugestões, primeiro, não tentem dizer-nos o que fazer, segundo, façam bem o que vos compete."

PS: Nada tenho contra a agricultura, que não obstante o seu peso no PIB (de acordo com o INE o VAB do sector da agricultura, silvicultura e pesca corresponde a apenas cerca de 2,3% do PIB), cujo desenvolvimento poderá contribuir para um melhor aproveitamento dos recursos, aumento do emprego e redução do défice externo (de acordo com o INE o défice da balança de bens alimentares incluindo produtos transformados corresponde a cerca de 2% do PIB valor que não é despiciendo), mas para além de não ser evidente do ponto de vista económico (a haver razões serão sobretudo de natureza estratégica)que um país deva ter a "balança alimentar" equilibrada e, sobretudo, ter, em geral, uma posição de cepticismo quanto à subsidiação das actividades económicas, importa não esquecer que o essencial da política agrícola e de pescas é hoje em dia definida a nível comunitário.

Ler os Outros: Macro Readings Update - Paul Krugman

Paul Krugman decidiu fazer um post com aqueles que ele próprio considera serem os seus posts mais importantes sobre macroeconomia.

Japan 1998
Macro Policy in a Liquidity Trap
Optimal Fiscal policy in a Liquidity Trap
A Dark Age of Macroeconomics
A History Lesson for Allan Meltzer
Liquidity Preference, Loanable Funds, and Niall Ferguson
Core Logic
More on Friedman and Japan
The Instability of Moderation
Self-Defeating Austerity
Sam, Janet, and Fiscal Policy
America’s Chinese Disease
The Doctrine of Immaculate Transfer
Currency wars and the impossible trinity

PS: Muitos dos posts referem-se à política monetária e orçamental num contexto de armadilha da liquidez pelo que é importante evitar ceder à tentação de transpor os argumentos para a realidade nacional: Portugal não está numa situação de armadilha de liquidez !

domingo, 12 de junho de 2011

Sobre a condução da política económica na periferia da zona euro

Uma regra básica de política económica é que para se atingirem vários objectivos de política económica independentes é necessário dispor igualmente de pelo menos um mesmo número de instrumentos de política económica independentes. Ora, numa união monetária as autoridades nacionais abdicam quer do instrumento taxa de juro - que no caso da zona Euro passou a ser controlado pelo BCE - que do instrumento cambial, o que significa que dos três instrumentos tradicionais de política económica apenas a política orçamental continua a ser definida no quadro nacional e ainda assim com constragimentos decorrentes do pacto de estabilidade e crescimento.

Num contexto em que a política monetária é conduzida em função da manutenção da estabilidade de preços no médio prazo para o conjunto da zona euro e a taxa de câmbio do euro resulta do equilíbrio entre a oferta e a procura no mercado cambial, isto implica que - numa situação normal - os países apenas dispõem do instrumento orçamental para atenuar os efeitos dos chamados "choques assimétricos" (ou seja, que afectam de modo diferente os países que integram a união monetária) sobre o crescimento económico e o desemprego e o equilíbrio externo. E naturalmente o que tende a suceder é os países optarem por priveligiar o objectivo crescimento, deixando de dispor de qualquer mecanismo para influir directamente no equilíbrio da balança corrente entre os países da zona euro, o qual passou a estar apenas dependente da poupança e do investimento em cada país (condicionada pelas restrições de crédito) e da evolução da competitividade que por sua vez depende da evolução dos preços e da produtividade.

Independentemente da sua origem, num quadro de insustentabilidade das contas públicas que actualmente se verifica em alguns países da zona euro a situação é ainda pior pois não só não dispõem de qualquer instrumento para atenuar ou compensar os efeitos recessivos da necessária austeridade orçamental como, particularmente os pequenos países, correm o risco desses efeitos serem acentuados por um aumento da restritividade da política monetária que serja eventualmente necessária para evitar a subida da inflação no conjunto da zona monetária e, de facto, a única "solução" para a correcção dos desequilíbrios no mercado de trabalho e externo é através (da descida) dos preços e salários e do aumento da produtividade.

Daí que assumam particular importância as ditas políticas estruturais que visam fundamentalmente flexibilizar o ajustamento dos salários e criar as condições para um aumento da produtividade, sendo que - dado que as medidas para aumento de produtividade tendem a ser mais demoradas a produzir efeitos (e estes efeitos são mais incertos) - o ajustamento salarial tenda a ser privilegiado surgindo mesmo como a única solução para através da recuperação da competitividade externa conter o crescimento do desemprego.

A questão que se coloca é que além dos efeitos políticos e sociais associados a uma política de redução de salários reais: i) o efeito dessas políticas sobre o nível de salários é incerto dado a rigidez natural dos salários nominais; e, ii) um processo de deflacção nominal dos salários tem o efeito preverso de aumentar o fardo relativo dos encargos com a dívida não só dos trabalhadores mas também via efeito sobre a procura nominal agregada interna sobre a dívida das empresas e das próprias administrações públicas afectando adversamente as condições de crédito da economia num fenómeno que - pelo menos no curto-médio prazo - tenderá a acentuar os efeitos recessivos.

As medidas do programa grego de austeridade

Um plano bastante exigente que inclui  medidas adicionais de 6,5 mil milhões de euros em 2011 e de 22 mil milhões de euros em 2012-2015 e receitas de privatizações de pelo menos 50 mil milhões de euros.
As medidas adicionais incluem aumentos de impostos (pelo menos 2,45 mil milhões de euros este ano, 2,88 milhões de euros em 2012, 450 milhões de euros em 2013 e 300 milhões em 2014), redução da despesa com ´remunerações no sector público (800 millhões em 2011, 660 millhões em 2012, 398 milhões em 2013, 246 milhões em 2014 e 71 milhões em 2015) obtidas através da redução das contratações e pela não renovação de 50% dos contratos temporários; cortes nas prestações sociais (mil milhões em 2011, 1,26 mil milhões em 2012, mil milhões em 2014 e 400 milhões em 2015); aumento das contribuições sociais (629 milhões em 2011, 259 milhões em 2012, 713 milhões em 2013, 1,13 mil milhões em 2014 e 337 milhões em 2015); eliminação e fusão de en tidades públicas; cortes no investimento público; cortes na defesa e cortes na despesas de saúde

Por sua vez o programa de privatizações é extensissimo e inclui as lotarias, portos, aeroportos, concessões de autoestradas, empresas de distribuição de água e electricidade, participações no sector das telecomunicações e imóveis.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

As respostas de Mario Draghi

O questionário do Parlamento Europeu ao futuro presidente do BCE é um documento extremamente interessante para ilustrar os dilemas que a Europa enfrenta.

Em resposta a uma das questões do questionário do Parlamento Europeu o futuro presidente do BCE considera que "a sovereign debt restructuring would imply severe financial and macroeconomic risks. A restructuring in a euro area member state poses a significant risk of destabilising the financial system, with severe consequences for the growth outlook of the euro area. Finally, significant spill-over effects on other euro area countries cannot be excluded, with a negative impact on confidence and expectations of further restructuring in the country concerned or elsewhere. Doubts about debt sustainability and higher spreads could emerge across euro area countries." (meu sublinhado).

Considerando que "The way forward to solving any sovereign debt crisis in the euro area relies on fiscal discipline and consolidation when needed. More specifically, countries should maintain ambitious consolidation efforts until excessive deficits are corrected, clearly specifying the underlying tax and spending measures as soon as possible. Fiscal governance should be strengthened (adopting stringent multi-annual fiscal rules with sanctions in case of noncompliance) to foster credibility of the fiscal target in later years. In case of countries under EU/IMF programmes, full implementation of the programme is envisaged as the only way for the country to regain fiscal discipline and credibility vis-à-vis its debt holders. Economic reforms to stimulate competitiveness and growth are also crucial."

Tornando claro que, para o BCE a hipótese de restruturação não se coloca não existindo qualquer alternativa à política orçamental restritiva dos países para garantir a sustentabilidade das finanças públicas e forçar o ajustamento (descida) de preços e salários para recuperar a competitividade.

Num quadro em que os mercados parecem não acreditar na capacidade da Grécia (e também Irlanda e Portugal) conseguirem voltar a (re)financiarem-se no mercado nos prazos previstos nos programas de ajustamento, e em que apareentemente os alemães recusam em prolongar os programas de ajuda sem que os investidores partilhem os custos o espaço para uma possível solução parece cada vez mais estreito com consequência sobre os yields da dívida pública portuguesa que seguem hoje uma vez mais em alta.

E se é verdade que o impacto destas variações não tem grande significado para o financiamento do Estado (que, pelo menos até 2012, está assegurado pelo programa de assistência esxterna) a verdade é que esta evolução negativa afecta a capacidade das empresas portuguesas - e, em especial, dos bancos portugueses - conseguirem (re)financiar-se nos mercados o que agrava (ainda mais) as perspectivas para a actividade económica portuguesa nos próximos trimestres.