terça-feira, 9 de agosto de 2011

Porque desceram os mercados ontem ?

Os esforços do BCE (cuja intervenção conduziu a uma descida acentuada dos yields das dívidas espanhola e italiana) e do G7 foram insuficiente para evitar mais um dia de forte descida nos bolsistas que ontem registaram uma queda histórica, com os principais ínidices dos EUA a cair mais de 5,5% (o S&P 500 desceu 6,66% elevando as perdas para mais de 13% só este mês de Agosto) enquanto que os indices europeus desceram entre 3% e 6%.

Tendo sido particularmente paradoxal o facto de, apesar da queda ser atribuída à descida do notação da dívida pública dos EUA atribuída pela Standard & Poors, os juros de obrigações dos EUA a 10 anos terem de facto descido mais de 20 pontos base.

Sinal de que a dívida pública dos EUA mantém, pelo menos em grande parte, o seu estatuto de activo de refúgio e que conjugado com circunstância da descida de notação já ser há várias semanas considerada como um acontecimento provável - e que devia portanto já ter sido em boa parte descontado pelo mercado - de que outros factores, nomeadamente os receios de uma recaída numa situação de recessão global (ou pelo menos nos EUA e na Europa) estarão a desempenhar um papel importante nesta descida dos mercados.

E, de facto, se os indicadores económicos que foram conhecidos nas últimas semanas apontavam para uma forte desaceleração do ritmo de recuperação da actividade económica - mas ainda não para uma situação de recessão (como indicam também os indicadores avançados ontem divulgados pela OCDE) - os acontecimentos das últimas semanas que apontam para medidas de contenção orçamental nos EUA e na Europa - ou pelo menos para a ausência de margem para políticas orçamentais expansionistas - conjugada com as políticas mais restritivas nos chamados países emergentes para conter os sinais de sobreaquecimento da procura interna nesses países e, ainda, a escassa margem de manobra para a política monetária nos EUA, zona euro e Japão, implicam que será muito dificil evitar que essa desaceleração se acentue, podendo mesmo conduzir a uma situação de recessão.

sábado, 6 de agosto de 2011

A descida do rating dos EUA

Como temido a Standard & Poors anunciou a redução do rating dos EUA de AAA para AA+ justificando esta redução pelo facto de a prolongada controvérsia em torno do aukmento dos limites de endividamento federal indicar que os progressos no curto prazo relativamente à redução do défice serão menos prováveis do que o anteriormente assumido e que o plano de consolidação fiscal acordado fica aquém do necessário para estabilizar o peso da dívida pública em meados da década.

Para a S&P "The political brinksmanship of recent months highlights what we see as America's governance and policymaking becoming less stable, less effective, and less predictable than what we previously elieved. The statutory debt ceiling and the threat of default have become political bargaining chips in the debate over fiscal policy. Despite this year's wide-ranging debate, in our view, the differences between political parties have proven to be extraordinarily difficult to bridge, and, as we see it, the resulting agreement fell well short of the comprehensive fiscal consolidation program that some proponents had envisaged until quite recently. Republicans and Democrats have only been able to agree to relatively modest savings on discretionary spending while delegating to the Select Committee decisions on more comprehensive measures. It appears that for now, new revenues have dropped down on the menu of policy options. In addition, the plan envisions only minor policy changes on Medicare and little change in other entitlements, the containment of which we and most other independent observers regard as key to long-term fiscal sustainability".

PS: Sobre as possíveis consequências desta acção recomendo um conjunto de posts recentes do Alphaville, nomeadamente aqui, aqui e aqui. A ideia que parece ressaltar é que, à partida, as consequências serão limitadas mas existem factores de incerteza relacionados nomeadamente com a importância dos títulos do Tesouro dos EUA (ou garantidos pelo Tesouro dos EUA), riscos que a Reserva Federal se apressou a tentar conter anunciando imediatamente que "For risk-based capital purposes, the risk weights for Treasury securities and other securities issued or guaranteed by the U.S. government, government agencies, and government-sponsored entities will not change. The treatment of Treasury securities and other securities issued or guaranteed by the U.S. government, government agencies, and government-sponsored entities under other federal banking agency regulations, including, for example, the Federal Reserve Board's Regulation W, will also be unaffected".

Evolução do desemprego nos EUA - Julho de 2011

De acordo com os dados divulgados hoje pelo BLS, a taxa de desemprego nos EUA reduziu-se ligeiramente em Julho para 9,1 % (-0,1 pp) e o número de desempregados reduiziu-se em 156 mil, tendo o número de empregados por conta de outrem aumentado em 117 mil. Sendo, no entanto, de notar que a redução da taxa de desemprego se ficou a dever a uma queda da taxa de participação que se traduziu numa redução da população activa de 193 mil.

Estes dados apontam para uma actividade económica frágil mas (ainda) não para uma situação de recessão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Can the Euro Area Hit the Rewind Button? - Barry Eichengreen

Num artigo do passado dia 23 de Julho,  Eichengreen considera que a criação do euro foi um gigantesco erro: "Creating a single currency without also creating a single bank regulator, an emergency lender, and a credible set of fiscal rules gave Europe a common monetary house without a foundation. Europe acquired shiny coins and elegant banknotes but not the other elements of a workable monetary union. The need for these other elements may have been understood, but the national governments participating in the monetary union refused to cede sovereignty over their banking, financial and fiscal policies. Now they are paying the price." que foi agravado pela opção por uma união monetária "not limited to Northern Europe but including also the “Club Med countries”: Italy, Spain, Portugal and Greece. How anyone could have expected these highly indebted, deficit prone countries to cohabit monetarily with their fiscally rigorous Northern European neighbors was never clear. Some policy makers presumably imagined that the Southern European countries would magically acquire Northern European habits. Or that, blessed with hard money, they would grow so fast that their heavy debt loads would disappear. As recent events remind us, such hopes were less than realistic."

Mas, explica as razões porque se trata de um processo irreversível, chamado a atenção para que, por exemplo, no caso de uma possível reintrodução do dracma "It would not require a Ph.D. in economics to understand that the savings of Greek residents were about to be converted into drachmas that would soon lose value against the euro. Investors would thus respond by transferring their Greek bank deposits to Germany. All of them. On the first minute that word got out that the government was discussing the possibility. Investors would sell their Greek stocks and bonds, for the same reason. This would be a full-fledged financial panic. It would be a full-out bank run. It would be the mother of all financial crises. Greece would have to close down its banking system until order was restored. It would have to suspend trading on its financial markets. It would probably have to seal its borders to prevent residents from ferrying cash out of the country. Being forced to take these steps would not exactly enhance the reputation of the politicians forced to take these emergency actions as a result of their own prior discussions. All this could be avoided, you might say, if the decision was taken in secret and announced as a fait accompli. Residents would wake up one morning and be told that their euro stocks, bonds, cash and bank deposits had all been converted into drachma. End of story. But it is not a plausible story."

E mesmo o cenário de uma saída da Alemanha do euro seria igualmente traumático pois "German exports would be smashed when the deutschemark went through the roof against the currency of the country’s European neighbors", e mais importante "a move to reintroduce the [DM] would create massive financial crises in other European countries, as individuals there shifted their bank deposits en masse to Frankfurt. More financial crises in other European countries are of course the last thing that German business wants. This is why Germany will, in the end, swallow hard and agree to the higher taxes and transfers to other weaker countries needed to make the monetary union work. It will not do so happily. It will not do so all at once. But it will do so eventually because there is no more attractive alternative." Uma crise financeira que (acrescento eu) seria potenciada pelos problemas de balanceamento dos activos e passivos financeiros internacionais que lançaria o caos no sistema financeiro e de pagamentos.

Concluindo que a Europa não tem outra opção a não ser fazer com que o euro funcione!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sobre o negócio de venda do BPN

O caso BPN foi obviamente um "negócio" ruinoso para o Estado com um custo global, já descontado do preço de venda ao BIC, que de acordo com o comunicado do Ministério das Finanças deverá ascender a cerca de 2,4 mil milhões de euros.

Uma venda desta natureza, e nestas condições, seria sempre tendencialmente polémica e obviamente que se poderá sempre especular sobre se existiriam ou não alternativas. A verdade porém é que, na situação em que o BPN se encontrava a operar, adiar a solução da questão apenas serviria para destruir (ainda mais) valor aumentando os custos finais para o Estado e da esclarecedora audição da Secretária de Estado do Tesouro e Finanças ficou claro que - independentemente de outros aspectos - a proposta alternativa apresentada pelo designado Núcleo Estratégico de Investidores (NEI) de fazer um pagamento de 5% em Dezembro e fasear o montante restante ao longo de seis anos era manifestamente inaceitável.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Survey da OCDE sobre a Grécia

Num survey hoje divulgado, a OCDE considera que o programa de ajustamento aplicado na Grécia pode ser bem sucedido.

De acordo com os cálculos desta organização,  um superávite primário (ou seja antes de encargos com a dívida pública) de 5-6%, combinada com a implementação de um plano ambicioso de privatizações (que propicie cerca de 50 mil milhões de euros) e reformas estruturais que aumentassem a taxa de crescimento potencial da economia seria suficiente para reduzir os níveis de dívida pública para níveis sustentáveis.

No cenário base (1,7% de crescimento médio anual e 15 mil milhões de euros de receitas de privatizações) o rácio de dívida pública grega atingiria 159,3% em 2013 descendo depois progressivamente até 98,1% em 2035. Mas, mantendo os demais pressupostos, se a taxa de crescimento média anual se situasse nos 2,5% o rácio a dívida desceria abaixo dos 100% em 2028. E admitindo uma taxa de crescimento média de 2,5% e receitas de privatizações de 50 mil milhões de euros essa meta seria atingida em 2023.

Itála e Espanha sob pressão

A tendência dos últimos dias para a subida das taxas de juro das dívidas públicas italiana e espanhola continua hoje com os yields das obrigações a 10 anos a situarem-se significativamente acima dos 6%, níveis que são extremanente preocupantes e que confirmam, menos de duas semanas sobre a cimeira europeia, que as medidas então tomadas não foram suficientes para conter os riscos de "contágio".