domingo, 22 de março de 2009

Lições económicas da crise

Da actual crise económico financeira julgo poderem-se desde já destacar quatro grandes conclusões:
1 - Depois de anos em que se priveligiaram as questões microeconómicas (ou se preferirem a economia da oferta), esta crise veio demonstrar a importância da regulação da procura agreagada e a relevância dos equilíbrios fundamentais nomeadamente ao nível da balança de pagamentos.
2 - A necessidade de reavaliação da política monetária. É um aspecto que não tem sido suficientemente focado mas esta crise resulta (em parte) de erros de política monetária, que se focou exageradamente na evolução da inflação e do emprego desprezando a evolução exagerada do crédito e a sobrevalorização dos preços dos activos que alimentou.
3 - As insuficiências de uma regulação demasiado passiva que confiava na auto-regulação das empresas pelos investidores e em que as empresas de auditoria e agências de rating assumem um papel central.
4 - A necessidade de reavaliar os esquemas de incentivos dos gestores que era suposto conduzirem a um melhor alinhamento dos seus interesses com os de longo prazo dos accionistas/empresas.

3 comentários:

Carlos Santos disse...

Caro JP Santos,

De acordo com 3 e 4, e em parte com 2. Mas se foram os superávites comerciais chineses a suportar a dívida pública americana, e os título da Fannie e do Freddie, realimentando o crédito, como sugere que se regule a procura agregada? Refere-se políticas demand management em sentido keynesiano?

Nas questões da regulação vs auto-regulação já são os próprios ícones da autoregulação a admiti-lo. Becker acabou por pôr em causa muita coisa, mesmo sem querer no WSJ de ontem. Se me permite sugiro http://tinyurl.com/dfq6nj.

Carlos Santos

JP Santos disse...

Refiro-me a uma conjugação das políticas monetária/cambial e orçamental (no sentido keynesiano). Uma das causas profundas da crise foi uma excessiva dependência da política monetária que na sua tentativa (de evitar as recessões (no que foi sendo bem sucedida) foi alimentando desequilíbrios estruturais e gerando sucessivas bolhas com o desfecho conhecido. Não acredito no fine-tuning das economias mas creio que uma política orçamental contra-ciclica mais activa teria sido um elemento essencial para uma melhor regulação da procura agregada que evitasse a acumulação desses desequilibrios.

Fábio disse...

Não sei se há uma grande preocupação sobre os desequílibrios da Balança de Pagamentos. O dólar é ainda a moeda de reserva de referência internacional e o défice da Balança de Pagamentos americana é o reflexo disso. A Alemanha não tem esse problema e portanto na UEM ninguém se preocupa com isso (posso estar a exagerar). Nas conferências de Bretton Woods Keynes defendeu que os países com excedentes na BoP também deveriam proceder a ajustamentos (e portanto o ónus não residia apenas sobre os deficitários) - mas essa tese não venceu...