sexta-feira, 12 de março de 2010

O problema do cenário do PEC

Já tinha chamado aqui a atenção para esta questão do equilíbrio externo que aparece muito elucidativamente demonstrada aqui.

De acordo com o cenário em que assenta o PEC as necessidades de financiamento do sector privado que em 2010 serão aproximadamente nulas (no cenário do PEC aponta-se para -0,1% do PIB e não -2,2% como no quadro apresentado naquele post) voltarão a aumentar até 2013, ano em que ascenderão a cerca de 5,4% do PIB.

Isto significa que as previsões de crescimento contidas no PEC para o período 2011-2013 estão dependentes do endividamento do sector privado que acomodaria a contenção do sector público regressando a economia a uma situação semelhante àquela que se verificou em 2006 e 2007. Simplesmente, isto parece-me muito pouco crível, quer do lado da procura quer do lado da oferta - pois como se refere no artigo não será normal que as famílias e empresas regressem a uma trajectória de endividamento insustentável -  e, mesmo admitindo que o fariam, as condições de facilidade de acesso aos mercados de capitais internacionais que nesse período permitiram o financiamento desses défices dificilmente se voltarão a repetir.

E, portanto, na ausência de um progresso quase miraculoso da competitividade externa, o crescimento tenderá a ser inferior ao previsto, o que por sua vez significará a necessidade de medidas adicionais para que seja possível alcançar o referencial para o défice e dívida públicas.

Adenda: Fazendo as contas, o cenário do PEC aponta para que (mesmo com o cenário optimista para a inflação), em 2013, a posição líquida face ao exterior se situe em cerca de -130% do PIB.

2 comentários:

ricardo disse...

Tem toda a razão quando levanta a questão do endividamento do sector privado.
No cenário apresentado parte-se do pressuposto errado (o velho ceteribus paribus)de que as familias e as empresas vão mesmo aumentar o seu endividamento à medida que o Estado contrai o défice.
Vamos em vez disso entrar num ciclo vicioso de contração do consumo e do Investimento, diminuição da receita fiscal, novos aumentos de carga fiscal,..., revisão do PEC.
resta saber se esta recessão forçada nos vai trazer a deflação de que necessitamos para melhorar a competitividade.

João disse...

Antes de mais parabéns pelo seu blog.

Não tenho dúvidas que a solução para Portugal passa por uma nova análise economica enquadrada, como é obvio, nas ferramentas actuais de estudo macroeconomico.
Significa portanto que a análise macroeconomica do país é apenas o ponto de partida para as soluções de viabilização económica do País. Assim, nasce o PEC.

Mas considero que o PEC seja, lamentávelmente e como foi o anterior, uma compilação de soluções políticas que actuam sobre a macroeconomia esquecendo que a economia funciona "one to one" e não "all for all". Ou seja, actuamos politicamente apenas para cenários globais.
Tal actuação tem obviamente resultados comprovados históricamente (que própria Economia estuda) mas não resolvem todos os problemas reais que afectam a economia de Portugal. Falamos de problemas estruturais, mais concretamente de competitividade.

Um dos caminhos que Portugal precisa tem de seguir é o de identificar estes problemas "one by one". Temos de começar por aqui.
De seguida é necessário avaliar sector por sector. Avaliar ainda a competitividade e a presença de cada sector no mercado nacional e internacional.
É mais que óbvio que os agentes económicos nacionais não conseguem por si só actuar com competitividade nos mercados internacionais. Cabe pois ao Estado proporcionar as melhores condições possíveis para essa presença. Mas será que todos os mercados nos interessam? Será que se justifica apoiar todos os sectores? Com que sectores poderemos obter de forma consolidada um equilibrio de importações vs exportações?
Esta discussão será essencial entre a nossa comunidade nacional.
Tal não vejo acontecer...

Parece ser objectivo deste PEC baixar o volume de importações por via da redução do consumo. Ora, estas são medidas demasiado genéricas que só vêm trazer estagnação económica. Impede até a possibilidade de melhorar a competitividade nacional porque, sabemos bem, a tecnologia que permite a melhoria na performance industrial é importada.

Obviamente que o nosso pensamento está limitado às análises macroeconomicas porque é esse o caminho de actuação utilizado actualmente pelo Estado representado no seu orgão de gestão. Apesar da separação entre Ministério das Finanças e Ministério da Economia toda a análise e actuação do país se baseia nos cenários macroeconomicos e pouco se faz, pouca confiança se transmite, para que os agentes económicos e o Estado estejam em sintonia para actuarem de forma coerente com as necessidades do mercado nacional e dos restantes mercados com os quais precisamos "desesperadamente" de competir.

Não será dificil entender que Portugal sofre de problemas estruturais graves e estes não habitam apenas nas "paredes do Estado". Estão presentes na rede empresarial e seria aí o 1º local onde deveríamos actuar.

Muito mais se poderia dizer. Tudo porque, é óbvio, a economia funciona em rede e com efeito "bola de neve".

Breve a minha reflexão.
Fico perplexo quando vejo que muitos ainda acreditam na recuperação da competitividade por via da deflação. Pode verificar-se um pequeno ajuste mas não resolve em nada os nossos problemas de competitividade a longo prazo. É apenas um ajuste gráfico que não modifica a estrutura competitiva no nosso país.